Matéria no Globo (via Neosaldina com Coca-Cola) cita o autor de um livro sobre aqueles anos:
Quem falava mal da década de 80 tinha dor-de-cotovelo. Especialmente os que viveram os anos 70 e começaram trabalhar e a ter responsabilidades nos 80. A geração dos 80 foi a primeira que não teve uma expressão ideológica. Foi uma década de pouca preocupação e muito divertimento para a juventude – avalia Alzer, que saiu dos anos 80 com 19 anos.
O sujeito deu uma definição esquisita daqueles anos. Foi nos anos 80 que o movimento sindical renasceu, que a ditadura militar se esfacelou, que o Muro de Berlim caiu — e não tiveram expressão ideológica? Os anos 80 foram os anos da vitória definitiva do capitalismo e o fim da utopia para muitos, e possibilitou a loucos como Francis Fukuyama proclamarem “o fim da História”.
Passei boa parte dos anos 80 envolvido com política estudantil, e obviamente sou suspeito para falar; para mim, a alienação é um prêmio duramente conquistado. Mas a verdade é que a segunda metade dos anos 80 foi uma época de agitação política, em que o país se reencontrava com a democracia. E muita gente boa participou dela. E não custa lembrar da crise econômica. A coisa ficou tão braba naqueles anos que se colocou em desuso uma palavra — carestia — porque ela já não dava conta do que acontecia. A tal alienação encontrava o seu limite no bolso.
O fato é que qualquer década é de pouca preocupação e muito divertimento para quem é adolescente, e mesmo quando não é acaba se tornando algo do tipo, porque a memória vai selecionando os fatos passados e transformando uma época miserável, como costuma ser a adolescência, nos tempos mais felizes que se viveu. Mas daí a fazer uma comparação tão boba vai uma distância muito grande. Os sujeitos provavelmente imaginam que todo adolescente nos anos 70 pegou em armas, e esquecem — ou não sabem — que a maior explosão de hedonismo aconteceu justamente naquela década: a discoteca. Eles não foram considerados “a década do eu” à toa.
Na verdade, o que se viu nos anos 80 foi outra coisa: um processo de fragmentação social irreversível, aprofundado nos anos posteriores. No caso dos autores do livro, sua “tribo” específica podia ser tudo isso: alienada, inconseqüente, talvez fútil. Mas ela não respresenta os anos 80.
Além disso o livro tem alguns erros. O computador não se popularizou nos 80, e sim nos 90; durante aquela década computadores eram caros, para ricos e para uns poucos aficcionados. Os anos 80 apenas viram a chegada dos micro-computadores ao mercado brasileiro. E Kichutes eram mais usados nos anos 70; os 80 viram seu ocaso.
Por mim, eu continuo falando mal dos anos 80. Eu evitava ouvir rádio porque não suportava a música — até hoje aquele som de bateria, com caixa muito amplificada, me dá arrepios, e apenas uma cresceu com o tempo: Like a Virgin, de Madonna, é uma bela canção pop –, só via televisão tarde da noite (com exceção de algumas minisséries como “Anos Dourados”). Era velho demais para gostar de Xuxa ou do Balão Mágico. Não vi Top Gun, Rambo II, The Breakfast Club ou Ferry Bueller’s Day Off no cinema — e com exceção dos dois últimos, achei tudo um lixo (mas assisti a “Eu”, de Walter Hugo Khouri, e fiquei sabendo que o avô de Marcelo tinha um belo e invejável slogan: “Io se non chiavo non mi diverto“). Um dos meus orgulhos é ter passado incólume pela moda daqueles anos: acho que descobri cedo demais que jeans, camiseta branca (na época com dizeres tipo “Liberdade para Lamia”) e tênis são atemporais. Não usei calça verde-limão, roupa da OP ou tênis quadriculados. Meu passado, que me condena em tantas coisas, me inocenta desses pecados.
Para mim os anos 80 foram chatos, só isso.
No lugar que para mim é uma espécie de paraíso abandonado há muito tempo, o que quer dizer cheio de poeira e caoticamente desarrumado: um sebo.
A morte de Christopher Reeve me deixa triste, de uma maneira que a morte de outros atores que admiro não deixaram.
O comentário do Sérgio sobre o
Ainda lembro do dia em que comprei o meu primeiro Almanaque Disney. Foi em agosto de 1977.