A UDN vestida de azul e amarelo

Há 52 anos, um homem cunhou uma frase belíssima sobre um então candidato a presidente. “Juscelino não pode ser candidato, se candidato não pode ser eleito, se eleito não pode ser empossado, se empossado não pode governar.”

O nome do sujeito era Carlos Lacerda. Homem absurdamente brilhante — certamente mais brilhante que a grande maioria da oposição de hoje –, mas também um dos maiores cancros que a sociedade brasileira já produziu.

Felizmente, apesar dos apelos de Lacerda, Juscelino foi candidato, eleito, empossado e realizou um governo memorável.

O golpismo de Lacerda, no entanto, não acabou ali. Tinha atrás de si uma vitória, ser um dos principais responsáveis pelo suicídio de Getúlio Vargas. Já tinha conseguido alguma coisa. Nos dez anos seguintes, Lacerda pediu incessantemente o golpe militar. Foi atendido em 1964, mas foi também uma de suas primeiras vítimas.

Carlos Lacerda morreu em 1977, politicamente destruído, vários anos depois de o partido de que era símbolo, a UDN, ter sido extinto pela ditadura da qual foi um dos principais artífices. Os militares sabiam que não podiam contar com aqueles golpistas. Aquelas vivandeiras eram muito pouco confiáveis.

Mas agora, quase 30 anos depois, o seu cadáver de triste lembrança foi exumado pela oposição tucana. Desesperados diante do que tudo indica será uma derrota incontestável, os tucanos sobem às tribunas para pedir, sem nenhuma vergonha, o golpe puro e simples, como o venerável senador sergipano José Almeida Lima, ex-prefeito e homem hoje rico, que utilizou a tribuna do Senado na semana passada para declarar que “não podemos tolerar a vitória da corrupção” e que o governo de Lula “tem que ser interrompido”. Assim como a UDN naqueles tempos, o discurso tenta usar disfarces democráticos. Mas as entrelinhas são grandes demais. E são golpistas.

O raciocínio é simples: se a gente não consegue ganhar no voto, vai ganhar no grito.

E assim cai o véu. O jogo democrático não interessa a eles. O discurso da vontade soberana do povo, para eles, é só isso: discurso. Vestindo a túnica puída da UDN, o PSDB sobe às tribunas pedindo o golpe. O povo, para eles, só sabe votar quando elege um tucano. Quando deixa claro que acredita no governo e que acha que, com Lula presidente, vai comer algo melhor que chuchu ao molho FHC, os neo-udenistas se acham no direito de recorrer ao golpe e à destruição da democracia.

Essa é a nova UDN, vestida de azul e amarelo.

Durante os primeiros anos do governo Lula, o tucanato elevava a voz para falar do seu republicanismo. Dir-se-ia serem vestais a serviço da democracia. Se não havia diálogo com o governo, era porque o governo Lula tinha tendências autoritárias, tinha voltado as costas para o social (é engraçado e estranho ouvir o PSDB dizer isso, mas na oposição a gente pode falar o que quiser). Com o escândalo do mensalão, eles passaram a ter algo mais concreto nas mãos. Mas a verdade é que a nova UDN ainda não está acostumada a fazer oposição, e errou na medida.

Por isso o ódio udenista da oposição passou dos limites. Com sua histeria e ferocidade, acabaram criando uma certa repulsa por parte de quem interessa: o povo. O que as últimas pesquisas do Ibope, do Datafolha e do Vox Populi indicam é que, apesar de tudo, apesar de ano e meio de campanha cerrada, o povo continua dizendo não às múmias udenistas. Apesar de todos os ataques a Lula dos últimos meses, o povo brasileiro continua reconhecendo uma coisa simples: para ele, o governo Lula foi o melhor dos últimos tempos.

Enquanto a oposição bate há tempos e de maneira burra na tecla do baixo crescimento econômico do Brasil, o que o povo entende é outra coisa: que as classes mais baixas, nesses quatro anos, melhoraram e muito de vida. O que ele percebeu — e por isso é chamado de ignorante — é que há uma diferença ideológica clara entre o governo Lula e a nova UDN, diferença traduzida no crescimento econômico para quem mais precisa dele. É por isso que hoje, ao contrário do que acontecia até o início de 2005, a oposição abandonou o discurso de que Lula voltou as costas para os pobres. Não que tivesse algum pudor em apelar para isso: mas a dissonância cognitiva é tão grande que até eles, nesta reta de final de campanha tentando tirar o último caldo de virtualmente todos os escândalos acontecidos no país nos últimos tempos, sabem que não funciona mais.

Mas o pior, mesmo, é ver o deboche com que a nova UDN trata instituições que dizia sagradas, como o voto popular. São capazes de insinuar uma tragédia para o Brasil, a destruição de tudo o que foi construído nos últimos 20 anos — inclusive com a sua participação, por sinal nada desprezível — apenas para se ver novamente no poder. Aquele republicanismo tão propalado se revelou uma farsa, como a democracia udenista nunca passou de falácia, e como a recém-descoberta honestidade do PSDB é tão falsa quanto a crença no voto soberano.

Perdendo de vez seus escrúpulos, a nova UDN se igualou ao seu aliado, Garotinho (aliança justificada pelo príncipe dos sociólogos aos dizer que “eu também fiz alianças, assim como Lula”), cujos conselhos programáticos para Alckmin são os de deixar de usar fitinhas do Senhor do Bonfim e evitar tomar banho de pipoca, coisa de altíssimo nível político; o mesmo ser deletério e que há alguns meses tentou fazer do Brasil uma república de bananas, pedindo observação internacional para as eleições, em meio à greve de fome mais ridícula de todos os tempos.

A UDN que se alcunha PSDB, hoje, é uma vergonha para o Brasil.

Republicado em 15 de julho de 2010

Orgulho de ser brasileiro

Na finada Primeira Leitura, volta e meia o ex-Ministro do Exterior Celso Lafer, aquele que se humilhou nos Estados Unidos tirando os sapatos no aeroporto, como um cucaracho qualquer, descia a lenha na política externa de Lula.

Era até feio, porque pega mal um ex-ministro — ainda mais diplomata — bater sistematicamente em outro. Melhor fez o Rubens Ricúpero, aquele honesto o suficiente para dizer que “o que é bom a gente mostra, o que é ruim a gente esconde”, que tem suas críticas à política exeterior de Lula, mas reconhece suas qualidades. Uma entrevista sua no último número daquele boletim oficioso do PSDB era até engraçada: o repórter tentando arrancar uma condenação à política de Lula e o Ricúpero insistindo no pecado mortal, para a Primeira Leitura, de se ater à verdade.

Lafer insistia que a política externa de Lula estava totalmente errada e nos levaria ao desastre. Tudo partia de uma diferença de concepção de país. O governo FHC — e, pelas suas propostas, em 2007 um improvável governo Alckmin — raciocinava assim: eles acreditam que se matricularem o Brasil no Santo Inácio nós deixaremos de morar em Bonsucesso. Por isso privilegiavam as relações com os países ricos.

Esses países, como se sabe, têm mercados extremamente abertos para primos pobres como nós. A França não subsidia sua agricultura, uma das mais competitivas do mundo. Os Estados Unidos tampouco subsidiam seus produtos, como o algodão que chega ao Brasil por um preço menor que o custo de produção por um passe de mágica, e não empurram agressivamente os seus produtos enquanto fecham o país para, por exemplo, o aço brasileiro.

Infelizmente, alunos pobres em colégios de elite costumam ser é humilhados.

Quando Lula estabeleceu uma política externa privilegiando as relações com países em desenvolvimento, gente como Lafer se apressou em condenar a decisão. Aquilo não poderia dar certo. O Brasil perderia tudo o que tinha conquistado nos anos anteriores.

Hoje, as exportações brasileiras são o dobro do último ano de FHC. Passaram de 60,3 bilhões de dólares em 2002 para 120 bilhões. Obviamente, os defensores do PSDB dirão: “ah, mas isso é resultado do cenário internacional favorável”. (Tudo no país, de acordo com eles, é resultado de “um cenário internacional favorável”. É a melhor forma de negar qualquer competência ao governo Lula. O “cenário internacional favorável” é eleitoralmente o que a “mão mágica do mercado” é em discussões econômicas. O que quer dizer que, para eles, se o Brasil tivesse mantido a mesma política externa hoje exportaria mais que a China.)

Ainda dentro da filosofia tucana do “faça o que eu digo, não o que eu faço”, a imprensa passou os últimos 3 anos e meio batendo em Lula por “abandonar” o Mercosul. Isso não era bem verdade, mas em campanha vale tudo. Agora, em seu programa de governo, Alckmin avisa que vai voltar a privilegiar os países do norte.

Assim como FHC, Alckmin não gosta de andar com pobre.

Corrupção e privatização

Comentário do Grande Líder da Silva a este post:

O problema não é má gestão das estatais, mas o fato de elas serem usadas pelos políticos para cabide de empregos e corrupção.

O credo liberal de que as empresas privadas são exemplos de ética, contrapostos à corrupção endêmica na maioria das estatais, é provavelmente uma das maiores bobagens desse sistema. Porque não são. O objetivo de qualquer empresa é o lucro e para isso tudo, ou quase tudo, é válido. Se para conseguir lucros uma empresa precisar ser corruptora, ela será. É simples assim.

Não é preciso citar muitos nomes envolvidos em escândalos de corrupção para lembrar que isso não é bem verdade. Planam, Banco Rural, tantas outras. Todas essas são empresas privadas. E todas elas, segundo a imprensa, são corruptoras. O Grande Líder que me desculpe, mas a privatização não resolveu o problema da corrupção.

E nem poderia. Porque o problema não está na natureza de uma empresa, seja ela estatal ou privada. Nesse caso específico, está na relação das empresas privadas com o Estado.

Há alguns meses, uma empresa — privada — de telefonia assinou um contrato com o Governo de Sergipe que no momento é escorraçado para fora da vida pública. O valor original do contrato era de 60 milhões de reais. De alguma forma, e sem razão aparente, esse mesmo contrato passou a custar 90 milhões para o Estado.

Na maioria dos casos de corrupção em todo o mundo, os envolvidos são empresas privadas em relação com o Estado. A Halliburton, por exemplo, não é uma empresa pública.

Nos últimos 20 anos, apesar do que possa parecer, o Estado brasileiro deu grandes passos no sentido de uma melhora nesse aspecto. Hoje, é muito mais fácil para alguém conseguir um emprego numa empresa privada por indicação que no Estado, com exceção de cargos de confiança. A crença pueril de que um Estado menor, ou o fim das estatais, resolveria a corrupção não se sustenta.

E aí é que começa a bagunça: se uma empresa estatal é envolvida em algum caso de corrupção, lá vem a litania privatista de sempre. Mas não há grita semelhante em relação às empresas privadas, quando estão metidas na mesma confusão. Essas podem estar envolvidas em qualquer tipo de corrupção, que sua natureza “ética” não é questionada.

Há muito tempo este blog fala que corrupção é um problema de toda a sociedade, não apenas do governo, qualquer governo. A sociedade é, por natureza, corruptora — e algumas pessoas até afirmam que um certo nível de corrupção é benéfico, uma posição no mínimo discutível.

É justamente esse o papel do Estado: controlar e evitar a corrupção. É aí que se pode fazer críticas ao governo Lula, ao modo como se deixou engolir pelo sistema secular de trânsito entre público e privado, um dos seus principais pontos programáticos. Mas isso não pode ser feito contrapondo-se o seu exemplo a uma honestidade inexistente do PSDB.

No governo FHC a corrupção campeou solta. Qualquer tentativa de CPI era sabotada, e houve muitas: qualquer pessoa pode se lembrar de 3 ou 4 exemplos. O procurador Geraldo Brindeiro recebeu um apelido adequadíssimo justamente por isso: “Engavetador Geral da República”. O PSDB tinha melhores condições políticas de impor a impunidade, e não hesitou. Os indícios de roubalheira estavam em todos os lugares, mas além de o governo impedir que eles fossem investigados — o que o governo Lula não fez, a propósito, ainda que por impossibilidade –, contava com uma imprensa afável e simpática, para não dizer submissa.

A questão é simples: bater em estatais ignorando-se o papel da empresa privada no tráfico de influência e na corrupção é simplesmente uma idiotice.

O mundo de cabeça para baixo

Na Veja Online de ontem:

Para FHC, Lula “manchou a própria história” com o objetivo de manter-se no poder. “Transformou-se em político corrupto. Ele fez isso pra ganhar a eleição”.

Deixa eu ver se entendi: Fernando Henrique foi o autor de uma das decisões políticas mais nocivas para o país em toda a história, a criação do instituto da reeleição, inédita no Brasil mas adequada às suas pretensões principescas. Para isso, comprou parlamentares de maneira descarada, caindo no mais baixo fisiologismo — aquele que hoje, com todo o cinismo do mundo, finge desconhecer.

Este é o mundo em que eu vivo. Um mundo em que ACM Neto ameaça bater no presidente, dizendo-se “indignado” por uma suspeita de grampo telefônico — ele, o neto de ACM, o sujeito que grampeou a Bahia inteiro por causa de uma amante –, e não é sequer processado. (Mesmo assim falam do “autoritarismo do governo Lula”.)

Um mundo em que as vestais prostituídas do PSDB falam soberbamente dos sanguessugas, quando 70% das ambulâncias superfaturadas da Planam foram liberadas durante as gestões Serra e Barjas Negri no Ministério da Saúde de FHC.

Um mundo em que Geraldo Alckmin se sente com autoridade para falar em segurança — ele, o homem que com sua incompetência no governo do São Paulo possibilitou o terrorismo do PCC em maio deste ano, e cuja única medida “efetiva” para o combate ao crime foi a tentativa de redução da maioridade penal de 18 para 16 anos.

Agora é Fernando Henrique Cardoso, presidente que quase destruiu seu governo para garantir a própria reeeleição e cujo homem forte foi o modelo de honestidade ACM, que se sente com autoridade ética e moral para falar de sustentação no poder. Sem a mínima vergonha.

Eu não entendo mais nada.

Petrobras e política

A Criss está enganada quando fala que a “grande Petrobras” independe de visão política. Pelo contrário. Aliás, essa é a justificativa de toda e qualquer privatização: a de que políticos não sabem gerir empresas.

Dentro desse enfoque a Veja desta semana parte para o ataque, em um artigo tipicamente intitulado “Vivam as privatizações!” (com ponto de exclamação e tudo). É talvez a única coisa boa nesse segundo turno: a diferença ideológica entre os governos Lula e do PSDB, que sempre foi negada pela direita, fica mais clara. E na matéria, em que a defesa da privatização volta com força total, eles se lamentam que a Petrobras não pode ser privatizada porque o mercado não tem como comprá-la. É cara demais.

Obviamente, o governo do PSDB tentou dar um jeito nisso. Afinal, vender algo por 15 bilhões é mais fácil que vender por 70.

Durante 8 anos, a Petrobras foi sucateada de todas as formas legalmente possíveis. As contratações cessaram, e boa parte dos serviços foram terceirizados, segurando ou diminuindo o valor da empresa. O cenário internacional, claro, tem efeitos na sua valorização, como lembrou o Fred; ajudou, por exemplo, no fato de em 2002 a Petrobras atuar em 9 países, e hoje estar presente em 21. Mas é inegável que a mudança de enfoque durante o governo Lula, fortalecendo a empresa, também teve um efeito importante nessa valorização. Isso diz respeito ao modo como o governo federal encarou a missão da Petrobras. Durante o governo Lula ela voltou a contratar gente, além de readmitir vários que foram postos para fora por FHC. Para que se tenha uma idéia, durante aqueles 8 anos pouco mais de 300 novos empregados foram contratados, já no final do governo. Isso numa empresa que tem mais de 50 mil funcionários, e emprega quase 200 mil em todo o mundo.

Alguém realmente esperava que a Petrobras pudesse crescer dessa forma? Não é, como disse a Criss, “quase afirmar que a galera faz corpo-mole quando chefiada por esse ou aquele presidente, e trabalha mais quando liderada por outro, só pelo fato do cargo ser político”; é apenas dar condições aos empregados de fazerem sua parte.

Quando a Criss fala da “alta competência técnica” da Petrobras, ela tem razão. E essa competência orgulha tanto o pessoal que trabalha lá que eles não gostam de ser chamados de “funcionários da Petrobras”. Preferem os termos “empregados” ou “trabalhadores”, porque isso os diferencia do simples funcionário público. Eles são bons no que fazem, e sabem disso.

Daí porque é incompreensível que tenham sido boicotados pelo governo Fernando Hernrique. Foi a terceirização, segundo esses mesmos empregados da Petrobras que todos apontam como competentes, a principal causa da série de acidentes que a Petrobras sofreu durante aqueles anos. Gente despreparada e mal paga, que não tinha condições de desempenhar adequadamente aquele trabalho. E isso não deveria ser sequer discutido. Basta comparar as notícias de jornais durante aqueles tempos — o nome P-36 lembra alguma coisa a alguém? Ou a expressão “desastre ambiental”? — com a falta de notícias do tipo no noticiário dos últimos 3 anos e meio.

É aí que está o principal erro da Criss: ao dizer que não devemos “culpar o Governo de A ou de B pelos acidentes, que isso não tem nada a ver”, ela está negando a importância que a administração de qualquer empresa tem no seu funcionamento, ao tomar decisões. Isso é a negação do próprio funcionamento de uma empresa. Pior: parte do princípio de que a Petrobras é absolutamente independente do governo. Como se não fosse uma estatal.

Foi a orientação do governo Lula que fez a Petrobras, por exemplo, aumentar seus investimentos na área social, principalmente com o Programa Petrobras Fome Zero. O impacto social da empresa em várias regiões — em Sergipe isso é facilmente notado — foi enorme.

Há outros dados, que mostram também essa diferença na abordagem do papel da empresa. Por exemplo, durante o governo Fernando Henrique, o preço do gás de cozinha subiu assutadoramente. Em dezembro de 2001, custava menos de 20 reais. Em janeiro de 2003, mais de 30. Enquanto isso, nos últimos quase 4 anos ele subiu apenas 4 reais, em média, muito abaixo da inflação.

Quanto à postura do governo brasileiro em relação à crise da Bolívia, eu recomendaria que lessem o blog do Sergio Leo, que foi até lá acompanhar o imbroglio. O fato é que, como disse o Marcus, a postura do governo brasileiro tem sido sensata e conseqüente. Mas isso é assunto para outro post.

O Elton lembrou o caso da tentativa de mudança de nome da empresa para Petrobrax. Foi o mesmo raciocínio que levou algumas pessoas a sugerirem que o Banco do Brasil tivesse seu nome mudado para “Banco Brasil”, negando seu caráter nacional e tornando mais fácil a sua privatização. O que a Criss chama de “imbecilidade das mais improváveis” foi tema de amplos debates durante a era FHC — e, se não conseguiram a privatização, conseguiram pelo menos a quebra do monopólio. É curioso que o mesmo pessoal que durante a crise da Bolívia se arvorou em defensor do patrimônio nacional e encarou a nacionalização do gás boliviano (basicamente o mesmo que fizemos aqui há pouco mais de 50 anos) como quase um motivo para declaração de guerra, eram os mesmos que nos anos 90 defendiam a privatização da Petrobras.

Os tempos, afinal, mudaram.

Petroquiz

Quando Zé Eduardo Dutra assumiu a presidência da Petrobras, em janeiro de 2003, a empresa valia 15 bilhões de dólares. Em junho de 2005, ao deixar a empresa, seu valor de mercado era de 54 bilhões. Hoje, sob a presidência de Sergio Gabrielli, a Petrobras já vale mais de 70 bilhões de dólares.

Com esses dados, assinale a resposta correta:

a) O governo do PSDB foi incompetente ao gerir a empresa, o que se pode ver na série impressionante de acidentes ocorridos durante aqueles oito anos e que hoje acabaram;

b) O governo Lula foi competente no gerenciamento da empresa — a propósito, Zé Eduardo Dutra era sindicalista.

c) Na verdade o governo do PSDB também foi competente, porque o seu objetivo era esvaziar a empresa para vendê-la a preço de banana;

d) Nenhuma resposta acima;

e) A, B e C estão corretas.

Neo-nazistas, agora do outro lado

A. Hit.. Ops, SharonDurante as eleições americanas, quando alguns mais exaltados chamavam Bush de nazista, logo apareciam vozes gritando que não se podia fazer essa comparação, porque o nazismo foi muito mais que isso, etc.

Essa sacralização do nazismo como algo único, impossível de ser repetido, sempre me pareceu um erro. Pressupõe a idéia imbecil de que foi uma excrescência histórica sem explicação, uma espécie de Anunciação do mal. Descarta todo o processo histórico que o criou.

A maioria dos nazistas não era louca, não era alucinada de ódio. Era gente perfeitamente normal, com preconceitos comuns em sua época e lugar que foram amplificados além do “aceitável” em um momento específico. Muitos eram só oportunistas. E o próprio Hitler mostrou que era extremamente racional em seu ódio: “Se os judeus não existissem, precisariam ser inventados”, ou algo assim. Louco ou não, arcaico ou não, Hitler era um político, e um bom político para aquele momento específico da história alemã. Independente de seus próprios preconceitos, sabia que o anti-semitismo era uma plataforma importante para o crescimento do partido nacional-socialista.

Erro grave, esse. Esquecer o contexto histórico em que algo se desenvolveu pode permitir que essas mesmas ações se repitam.

Este blog já comparou a ação de Israel às dos nazistas e foi criticado de algumas pessoas. Talvez por isso dê para imaginar a surpresa ao ver Yosef Lapid, que viveu no gueto de Budapeste durante a II Guerra, comparar a ação de Israel na Faixa de Gaza a ações nazistas semelhantes: “Vi na televisão uma senhora [palestina] procurando seus remédios numa casa destruída em Rafah, e ela me lembrou minha avó”. (A matéria completa, que fala sobre o declínio dos direitos humanos, é assinada por Silio Boccanera e está na Primeira Leitura de novembro de 2004).

Ainda assim Lapid seria só mais um sujeito a se indignar com o que Israel anda fazendo na Palestina, não fosse ele o ministro da Justiça do seu país. Agora, o Pedro Dória mostra o exército israelense tratando um violinista palestino da mesma forma que nazistas trataram judeus nos anos que precederam a II Guerra Mundial. A semelhança é impressionante. As imagens de judeus lavando o chão, cercados por soldados e transeuntes que riem de sua humilhação, deveriam ser mostradas a todos que menosprezam a maldade humana; e a essa imagens deveriam ser juntadas as do violinista Wissam Tayem.

Claro que se pode dizer que não há comparação, que Israel não construiu campos de morte como Auschwitz e Dachau. Mas por uma questão de metodologia, a Solução Final não define o nazismo. Define o Holocausto, o momento mais baixo da história da humanidade. O que realmente define o nazismo é a série de leis e, principalmente, de atitudes que o Reich empreendeu nos anos 30. O Holocausto não teria acontecido se, antes, o nazismo não fosse se fortalecendo através da perseguição e humilhação de milhões de judeus, se Chamberlain não deixasse esses pequenos detalhes passarem enquanto aceitava com protestos débeis os avanços de Hitler.

Hoje, Israel é um Estado opressor. Prepara o genocídio de uma raça. Se torna progressivamente racista à medida que seu povo aprende, desde o berço, que palestino é perigoso. E se isso não o faz cada vez mais parecido com o regime que fez o seu povo sofrer como poucos outros na História, então eu não entendo mais nada.

Originalmente publicado em 2 de dezembro de 2004

Marketing político

Augusto Nunes em nominimo:

Como os jornalistas, como os advogados, como todos os cidadãos, também a turma do marketing político precisa entrar na roda. Pode um publicitário alugar a cabeça ao candidato que sabe não ser o melhor, que não mereceria seu voto, mas ofereceu vantagens financeiras inacessíveis ao concorrente a quem sobram virtudes mas faltam verbas? O pessoal do marketing político está à margem da ética? Leva quem paga mais? Perguntas desse gênero pedem, aos gritos, respostas imediatas.

O Augusto Nunes faz boas perguntas, mas faltam algumas: eu, por exemplo, queria saber se médicos só devem cuidar de pessoas que admirem, se dentistas só devem obturar dentes de gente em quem acreditam (sem contar aqueles do SUS que simplesmente arrancam os cacos cariados dos que não podem pagar o amálgama), se engenheiros só podem construir casas para pessoas que amem.

Se fossem seguir esses ensinamentos, para fazer um anúncio de absorvente feminino todos os publicitários do mundo precisariam usar Sempre Livre.

A crítica do Augusto Nunes não é justa, mas para mim tem explicação. Apesar de toda a conversa sobre “imparcialidade”, jornalistas costumam assumir posturas ideológicas, tão mais firmes quanto mais firmes forem seus caracteres. Esqueça a teoria. Na prática, bons jornalistas acreditam ter uma missão, a de informar o público e, com sorte, balizar a pauta nacional. Se acostumam a ser agentes políticos, na acepção mais ampla. Por isso uma candidatura, vista da ótica deles, só pode ser defendida por quem acredite nos ideais do candidato. E parecem achar que publicidade e jornalismo são disciplinas irmãs. Não são. O jornalismo deve ser imparcial, a publicidade não. Se fosse para apenas relatar os fatos, não seriam necessários publicitários no mundo: bastaria abrir mais jornais.

Basicamente, marketing político é técnica, e técnica independe de opinião. Por outro lado, política é convencimento. Alguém precisa convencer o eleitor de que é o mais preparado para gerir o Estado ou o município, ou representá-lo no parlamento. Não cabe a um “marqueteiro” definir a política — e qualquer bom jornalista sabe bem que política é muito mais que isso. Não foi o Duda quem inventou o Pitta: foram as circunstâncias. Tudo o que o “marqueteiro” faz é traduzir o pensamento do candidato, dar uma forma atraente ao conteúdo já definido.

O curioso é que até a chegada dos publicitários, os jornalistas eram os principais responsáveis pelos programas políticos. Mas, como eu já disse, jornalismo e publicidade não são a mesma coisa. Para aproveitar tudo o que a TV tinha a oferecer, era preciso gente que conhecesse o meio; e para dar maior ressonância ao discurso do candidato, era preciso gente que soubesse fazer essa tradução. Parece que todo o engajamento de jornalistas comprometidos não era suficiente. Entraram os publicitários na história e, de repente, começaram a chover críticas sobre os tais “marqueteiros”.

Mas a cada dia me convenço mais de que a entrada de gente como Duda Mendonça e Nelson Biondi foi um dos maiores serviços já prestados à democracia.

O avanço técnico das campanhas, a melhoria do nível de qualidade deram uma contribuição imensa ao debate político. Chamou a atenção do povo. E como as pessoas passaram a assistir mais, passaram também a questionar o que viam. Se tornaram mais conscientes do seu papel, e a forma de se fazer política mudou bastante graças a esse espírito crítico, que aumentou porque os programas ficaram mais interessantes. Pelo menos no que diz respeito às candidaturas majoritárias, as pessoas votam cada vez melhor, sim.

E isso, que me desculpe o Augusto Nunes, é mérito dos “marqueteiros”. Talvez porque eles normalmente evitam compartilhar essa opinião elitista de que povo é burro. Povo, meu amigo, é quem sustenta você, seja você quem for. Ele não é burro. Como dizia David Ogilvy, “Não subestime o consumidor. Ele é a sua mulher”.

Quem acha que um mundo sem os tais “marqueteiros” seria melhor, lembre dos programas eleitorais do PSTU. É um programa sem nenhuma participação dos malditos “marqueteiros”, feito por gente que tem um compromisso ideológico muito grande com a candidatura. Vejam como foram bons, como foram longe, como convenceram mais e mais pessoas a votarem em suas propostas de não à Alca, não a isso e não àquilo. Como acrescentaram tópicos importantes ao debate político nacional. Nas próximas eleições votem neles, porque contra burguês, vote 16.

É por isso que cada dia mais vejo essas críticas dos jornalistas como um elogio, infelizmente exagerado. Eles parecem acreditar que o pessoal que faz marketing político é capaz de milagres, de ressuscitar Lázaros e curar leprosos. Não são. Mas eu é que não vou dizer isso a eles. Vou é tentar aumentar meu cachê na próxima campanha. Porque milagre custa mais caro, sabe como é.

***

Há um aspecto interessante em tudo isso. Olhando pesquisas qualitativas, salta aos olhos o fato de que são apenas as classes A e B que fazem referências aos “marqueteiros”. O tempo todo, na verdade; eles olham o programa não como se fosse do candidato, mas da equipe que o produz. Obviamente, se acham mais espertos por isso.

Feliz ou infelizmente, não são: a consciência de que os programas dos candidatos são feitos por “marqueteiros” raramente altera sua percepção do que foi dito. Podem até achar que sabem mais. Mas no fim das contas avaliam as coisas como o povão; o que influencia seu julgamento são outros aspectos, que não dizem respeito ao programa em si. E se engana quem acha que povo, as classes C e D, olha um programa eleitoral como idiotas. Ele costuma ter uma percepção acurada de suas necessidades e das propostas apresentadas, e muitas vezes surpreendem a nós, que julgamos saber quase tudo.

Nas próximas eleições, esqueça que existem “marqueteiros”. O programa não é deles, porque máquinas de escrever não escrevem livros. É do candidato. Faça como o povo, que sabe disso há muito mais tempo.

Originalmente publicado em 10 de outubro de 2004

Liberdade e Justiça

Essa imagem de Mirko Ilic, um dos grandes ilustradores americanos de hoje em dia, é uma das mais perfeitas definições de liberdade que já vi. Foi feita para um artigo sobre casamento gay, mas eu, pelo menos, acho que diz muito mais que isso.

Originalmente publicado em 20 de setembro de 2004