Para aquelas que chamei de pseudo-feministas

Eu gostaria de pedir desculpas a todas as feministas pelas agressões e barbaridades que andei dizendo ultimamente neste blog.

Eu me desculpo, em parte, lembrando que minha implicância não é contra as feministas, de modo geral. Não contra aquelas que lidam com problemas reais, como discriminação no trabalho ou violência contra a mulher — questões sérias de verdade e que, ao contrário das levantadas pela maior parte daquelas com que eu brigava, são problemas sociais que precisam de uma abordagem dura por parte do Estado e da sociedade. Minha implicância se dirigia basicamente àquelas que eu julgava histéricas, que vêem misoginia em tudo, que adotam aquela militância radical e boba e que fazem uma profissão de fé a partir da vitimização feminina.

Continuo discordando delas. Mas ando correndo de briga, como vivo dizendo neste blog. E acho que está na hora de fazer as pazes.

Por isso estou oferecendo a todas as mulheres que chamei de pseudo-feministas, mesmo achando que o seu discurso é equivocado, um pequeno vídeo que demonstra de maneira bastante didática essas questões, e que me fez pensar bastante no assunto.

O download pode ser feito aqui.

Amigos, agora?

Os comedores de criancinhas

A Igreja Católica americana, no início dos anos 60, publicou uma revistinha em quadrinhos destinada a alertar os Estados Unidos — que àquela altura estavam, ela acreditava, à beira de uma revolução socialista — dos perigos do marxismo.

O mais interessante são as conclusões a que a Igreja chega. Porque Hegel rompe com a tradição idealista platônica, e percebe o básico dos básicos — que novas idéias são produto de um processo dialético –, a revista coloca duas frases brilhantes nas bocas dos alunos.

Marx, o segundo aluno a partir da esquerda, se identifica com Hegel (e depois viraria seu pensamento de cabeça para baixo, mas isso é outra história) porque essa conclusão significa que Hegel não acredita em livre arbítrio. E o papa-hóstias renitentemente ignorante, por coincidência na extrema direita, contrapõe logo a brilhante explicação católica, decorada na escola dominical.

Investidas sobre Marx, principalmente primárias como essa, são aceitáveis a esta altura. Já são tão comuns que não surpreendem mais. Mas os sujeitos atacavam até o velho Hegel.

Obscurantismo, ignorância e má-fé são as únicas expressões que consigo associar a essa revistinha.

O link está aqui, neste post do Boing Boing.

Ata de fundação da Brigada Humphrey Bogart

The Lancet, jornal médico inglês famoso em todo o mundo, pediu em editorial que a Inglaterra proíba definitivamente o cigarro em terras do Príncipe Tampax.

É claro que cigarro incomoda os não-fumantes, e a maioria dos tabagistas tenta chegar a um meio-termo na convivência com o resto do mundo. As exigências de não fumar em lugares fechados, e outras do mesmo tipo, são razoáveis e justas.

Mas o rebaixamento do cigarro ao mesmo nível legal da maconha é um abuso que não pode ser tolerado. O principal argumento contrário é que isso, em primeiro lugar, cria um mercado imensurável para o crime. E eu, pelo menos, não consigo me imaginar subindo o Pavão-Pavãozinho para comprar um maço de Kent, provavelmente falsificado no Paraguai e custando 5 vezes mais.

O mais preocupante, mesmo, é que essa perseguição cria um precedente perigoso no cerceamento da liberdade individual, o que parece cada vez mais comum na era Bush. Do jeito que as coisas vão, daqui a pouco vão probir homossexuais de fazerem sexo; e vão arranjar alguma razão científica para isso.

Se o pedido viesse dos EUA não seria uma surpresa tão grande. Uma terra que começou a ser colonizada por gente que se recusava a deixar de perseguir os outros só podia ser assim. Essas atitudes histéricas são típicas dos puritanos, de gente que tem uma visão de vida e exige que o resto do mundo compartilhe dela. Eles não têm mais católicos e judeus para perseguir, japoneses são ricos demais, então restariam os tabagistas, essa escumalha de desgraçados fedorentos.

O que não se poderia esperar é que essa atitude viesse justamente da velha e civilizada Europa. Mas cada vez mais os bretões, em tempos idos um povo orgulhoso e altaneiro, se resignam em ser capachos de sua ex-colônia. Tudo bem. Cada povo tem o destino que merece. Um povo que não gosta da França só podia dar nisso. Não é à toa que uma ex-ministra francesa disse que 1 em cada 4 ingleses dá ré no quibe. Só pode ser falta de mulher bonita. É o clima horroroso. É a comida insuportável — o que dizer de um país cujo prato nacional é o peixe com fritas? Esses desocupados deveriam continuar fazendo suas pesquisas bisonhas sobre o id das baratas em vez de vigiar os pulmões dos outros.

Bem, é melhor parar com isso. Pequenas ofensas e deboches não valem a pena, neste momento em que a liberdade está seriamente ameaçada.

Se é guerra que querem, guerra eles terão. E começo por anunciar, aqui e agora, a fundação da Brigada Humphrey Bogart.

A Brigada Humphrey Bogart será um grupo de tabaco-terroristas, que se quer financiado pela Souza Cruz e pela Phillip Morris, cuja missão é defender a liberdade do consumo de nicotina em todo o mundo. Será baseado em Paris, terra dos Gitanes e dos Gauloises e da Juliette Binoche, e dedicará sua vida a ações terroristas contra esses governos totalitários, inimigos da liberdade e patronos da estupidez persecutória.

Inspirados no velho “Anauê!” dos integralistas, já temos o nosso grito de guerra: “Cof, cof!”. E nada, nem mesmo um enfisema, conseguirá nos impedir de derrotar a opressão.

Os biriteiros derrubaram a Lei Seca nos Estados Unidos. A Brigada Humphrey Bogart defenderá o direito de centenas de milhões de fumantes de exercerem a sua plena liberdade.

E se a guerra recrudescer, estaremos preparados para tudo. Até para atos vis como dar cigarros a criancinhas.

Avante, fumantes de todo o mundo!

À vitória!

Originalmente publicado em 10 de dezembro de 2003

Se o governo fosse o Tylenol

O Idelber acha que o governo pode ter errado ao não capitalizar de maneira mais agressiva sobre o mandato conferido ao Lula pelo povo brasileiro.

Eu não tenho certeza disso. Em primeiro lugar, é bom lembrar que Fernando Henrique, eleito em primeiro turno nas suas duas eleições, também foi refém dessas “forças da sociedade”, embora em menor grau que Lula, que tinha um passado considerado “negro” pelo mercado e foi ao segundo turno com Serra. E penso ser ilusão acreditar numa aliança PT/PL com um PT agressivo em uma plataforma popular reformista. Essa aliança tem condições próprias, das quais a ladainha de José Alencar pela diminuição dos juros é um indício claro. Ela existe em função de compromissos políticos e ideológicos que o PT assumiu; dificilmente teriam condições de avançar muito, fora da ortodoxia pregada pelo FMI para os mercados emergentes.

A questão que, na minha opinião, está para ser respondida é levemente diferente: dentro dessa conjuntura o PT teria condições de bancar um programa reformista minimamente radical, como acha o Idelber (e o Plínio de Arruda Sampaio, numa bela entrevista à Caros Amigos)?

Eu acho que não. Por isso, enquanto a classe média fazia como sempre fez, e reclamava do presidente em quem acabara de votar porque as mágicas não começaram a aparecer imediatamente, eu sempre levava em consideração que a correlação de forças não era exatamente favorável ao PT.

O que havia era um certo espaço para manobra, em áreas limitadas. Acho que o primeiro grande erro do governo foi não ter aprovado o salário mínimo de 300 reais no ano passado, sob a desculpa do superávit primário. Aquilo teria dado um respaldo que, provavelmente, aumentaria seu poder de fogo numa correlação de forças desigual. O governo ali foi covarde, como seria em outros momentos, não teve coragem de blefar; o resultado é o que se vê hoje, o governo se arriscando seriamente a perder o controle do Estado e aparentando ser, como disse o Roman, engolido pelo fisiologismo.

Agora, o fato de reconhecer essas deficiências não quer dizer que eu sequer considere uma alternativa nas próximas eleições. Que me perdoe o Reginaldo, mas o PSDB tem se revelado pior na oposição do que no governo. Não consta, ao menos, que na oposição o PT tenha levantado a bola de Severinos. Nos últimos tempos parece que se tem subestimado a direita deste país, como se seu componente ideológico tivesse desaparecido para dar lugar ao mais simples fisiologismo. Isso é, no mínimo, um desrespeito à história. Basta olhar para trás, para o que foi o governo de João Goulart, para ver que sempre há uma disputa ideológica, e que o fisiologismo só tem sentido dentro da manutenção de um status quo. Compreender essa dinâmica, embora não tire toda a sua responsabilidade, desculpa um pouco o governo Lula. Por outro lado, à esquerda a alternativa é ridícula e não merece sequer ser considerada, e em 2006 vai servir apenas para fortalecer a direita.

Além disso, há fatores a que os formadores de opinião não prestam a atenção devida, por estar longe do seu dia-a-dia. O crédito consignado, por exemplo, terá uma importância muito maior nas eleições do que pensa a classe média desavisada e que finge indignação diante dos roubos de galinha que a TV mostra. Enquanto ela reclama de taxas Selic, para o povão, sustentado às vezes pela aposentadoria de um avô, o país está melhorando (já falei antes que a classe média nao costuma ser a melhor balizadora de uma situação política). Esse detalhe deve ser importantíssimo nas próximas eleições, assim como os vários avanços em outras áreas, como cultura, etc.

É aí que está o grande problema nessa crise, e a provável cascata de ações semelhantes que devem se seguir. Porque nada disso é aleatório: tudo sempre faz parte da disputa por poder. Corrupto ou não, o Maurício Marinho — que não sabe sequer para que serve uma sauna — foi também uma vítima dessa luta, embora talvez não inocente. O jogo é pesado, sujo — mas é o jogo e todos sabem disso. A instauração da CPI é obra, sim, de quem quer desestabilizar o governo, etc.; mas isso não é um jogo de inocentes e caberia ao governo uma resposta adequada.

A questão, no fim das contas, é como administrar essas crises. E esse tem sido o erro do governo. Se até agora ele tem cometido falhas de comunicação, como diz o Tiago, a partir de agora é mais necessário do que nunca se comunicar de maneira correta. O governo cometeu um dos erros mais graves de sua história ao se opor abertamente à CPI dos Correios: sai do episódio como derrotado e, para muita gente, como protetor de corruptos. Agisse de maneira diferente e poderia conseguir duas vitórias: poderia evitar a CPI e ainda sairia com sua reputação ilibada.

Ao contrário do Roman não tenho muitas dúvidas, ainda, de que Lula vai se reeleger. E ao contrário do Roberson, não acho que o governo tivesse condições de aproveitar a CPI para limpar o terreiro. O grande problema que vejo nessa crise é a quase certeza de um segundo governo ainda mais fraco, ainda mais refém das forças de direita e do fisiologismo. Por outro lado, um cenário com um governo fortalecido, ocupando muito mais vagas no Congresso e forçando as outras forças que formam a base aliada a aderir a um programa mais progressista ainda é possível. Mas se as coisas continuarem do jeito que estão, é melhor que o povo brasileiro se prepare para tempos muito, muito difíceis.

Talvez não seja adequado comparar esta crise com o episódio do Tylenol com cianeto. Mas a postura transparente da Johnson & Johnson deveria ser lembrada, sempre. Não custa nada.

A crise dos Correios

A incompetência do governo federal no gerenciamento da crise dos Correios está me impressionando.

O aspecto ético, discussões sobre a honestidade ou corrupção do governo não me interessam, porque vai acabar numa discussão estéril entre apoiadores e opositores do governo, em que a oposição se esbalda nas acusações de corrupção enquanto desconsidera a sua própria responsabilidade nisso, e o fato de que o governo, além de não ter controle sobre todas as suas esferas, acaba na prática dando apenas uma resposta às exigências da sociedade.

Mas no terreno da comunicação, o governo tem a obrigaçao de encampar publicamente a CPI dos Correios. E não falo isso por uma concepção ética do que deve ser um governo; falo porque os danos que esse episódio pode causar a sua imagem podem ser gravíssimos. É uma crise muito mais grave que o caso Waldomiro. A razão é simples: estamos muito mais próximos à eleição, e a falta de uma atitude enérgica do governo pode levá-lo a uma situação muito parecida com a vivida por Sarney: um governo fraco, acossado por várias forças, sem controlar o que se passa em seu governo.

O noticiário do Jornal Nacional, ontem, foi um exemplo trágico de tudo o que não se deve fazer.

O cinismo do Maurício Marinho, dizendo que aquele dinheiro que ele foi filmado recebendo era um “adiantamento” por serviços de consultoria a serem prestados daqui a dois anos só serve para uma coisa: irritar ainda mais qualquer pessoa que tenha juízo, porque ninguém gosta de deboche. Depois disso apareceu o Roberto Jefferson dizendo que já que as acusações foram retiradas o PTB vai retirar o apoio à criação da CPI. Erro. Desconsiderando o que quer que fizesse nos bastidores, o PTB tinha o dever de exigir o esclarecimento dos fatos. A mulher de César.

Por incrível que pareça, tenho a impressão de que se as eleições fossem hoje Lula ganharia no primeiro turno. Por falta de uma oposição organicamente coesa, por uma série de resultados positivos na economia, por algumas iniciativas brilhantes do governo em várias áreas — quem acusa o governo Lula de incompetência absoluta deveria prestar mais atenção ao que o governo vem fazendo. Seria um cenário com vários pontos em comum com a reeleição de Fernando Henrique: se as coisas não estão tão mal, é melhor não arriscar.

O problema é que uma derrota do governo na comunicação em relação a esse caso pode ter conseqüências graves. Pode enfraquecer o governo a ponto de possibilitar à oposição a coragem de lançar um candidato realmente forte nas eleições presidenciais do ano que vem. Pode tornar o governo cada vez mais dependente das forças que o apóiam — basicamente as mesmas que apoiaram todos os governos civis. E o resultado pode ser um segundo governo ainda mais enfraquecido, mais suscetível à pilhagem das estruturas de poder.

Notícia velha, tão velha

Do Terra:

FHC e Severino fecham acordo para 2006, diz jornal

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) teria fechado novo acordo com o presidente da Câmara, Severino Cavalcanti (PE-PE) para enfraquecer o governo federal no Congresso e dificultar o trabalho do PT nas eleições presidenciais de 2006.

Como era mesmo aquela conversa de “republicanismo” e “oposição responsável” do PSDB?

Por quem os sinos dobram

Eles eram criminosos, mas até que sabiam fazer música:

Cara al sol con la camisa nueva
que tú bordaste en rojo ayer,
me hallará la muerte si me lleva
y no te vuelvo a ver.

Formaré junto a mis compañeros
que hacen guardia sobre los luceros,
impasible el ademán,
y están presentes en nuestro afán.

Si te dicen que caí,
me fui al puesto que tengo allí.

Volverán banderas victoriosas
al paso alegre de la paz
y traerán prendidas cinco rosas:
las flechas de mi haz.

Volverá a reír la primavera,
que por cielo, tierra y mar se espera.

Arriba escuadras a vencer
que en España empieza a amanecer.

España una
España grande
España libre
Arriba España

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Mas o lado de cá também sabia:

Avanti o popolo alla riscossa
Bandiera rossa bandiera rossa
Avanti o popolo alla riscossa
Bandiera rossa trionferà.

Bandiera rossa la trionferà
Bandiera rossa la trionferà
Bandiera rossa la trionferà
Evviva il comunismo e la libertà

Per gli sfruttati immensa schiera
La pura innanzi rossa bandiera
O proletari alla riscossa
Bandiera rossa trionferà.

Bandiera rossa la trionferà
Bandiera rossa la trionferà
Bandiera rossa la trionferà
Il frutto del lavoro a chi lavora andrà.

Dai campi al mare alla miniera
All’officina chi soffre e spera
Sia pronto è l’ora della riscossa
Bandiera rossa trionferà.

Bandiera rossa la trionferà
Bandiera rossa la trionferà
Bandiera rossa la trionferà
Soltanto il comunismo è vera libertà.

Non più nemici non più frontiere
Sono i confini rosse bandiere
O comunisti alla riscossa
Bandiera rossa trionferà.

Bandiera rossa la trionferà
Bandiera rossa la trionferà
Bandiera rossa la trionferà
Nel solo comunismo è pace e libertà.

Falange audace cosciente e fiera
Dispiega al sole rossa bandiera
Lavoratori alla riscossa
Bandiera rossa trionferà.

Bandiera rossa la trionferà
Bandiera rossa la trionferà
Bandiera rossa la trionferà
Evviva il comunismo e la libertà.

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E se resta alguma dúvida:

Negras tormentas agitan los aires
Nubes oscuras nos impiden ver,
Qunque nos espere el dolor y la muerte,
Contra el enemigo nos llama el deber.

El bien más preciado es la libertad
Hay que defenderla con fe y valor,
Alza la bandera revolucionaria
Que llevará al pueblo a la emancipación

Alza la bandera revolucionaria
Que llevará al pueblo a la emancipación.
En pie pueblo obrero, a la batalla
Hay que derrocar a la reacción.

¡A las barricadas, a las barricadas,
Por el triunfo de la Confederación!
¡A las barricadas, a las barricadas,
Por el triunfo de la Confederación!

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Só para terminar:

El Ejército del Ebro,
Rumba la rumba la rumba ba.
El Ejército del Ebro,
Rumba la rumba la rumba ba
Una noche el río pasó,
¡Ay Carmela! ¡Ay Carmela!
Una noche el río pasó,
¡Ay Carmela! ¡Ay Carmela!
Y a las tropas invasoras,
Rumba la rumba la rumba ba.
Y a las tropas invasoras,
Rumba la rumba la rumba Ba
Buena paliza les dio,
¡Ay Carmela! ¡Ay Carmela!
Buena paliza les dio,
¡Ay Carmela! ¡Ay Carmela!
El furor de los traidores,
Rumba la rumba la rumba ba.
El furor de los traidores,
Rumba la rumba la rumba ba
Lo descarga su aviación,
¡Ay Carmela! ¡Ay Carmela!
Lo descarga su aviación,
¡Ay Carmela! ¡Ay Carmela!
Pero nada pueden bombas,
Rumba la rumba la rumba ba.
Pero nada pueden bombas,
Rumba la rumba la rumba ba
Donde sobra corazón,
¡Ay Carmela! ¡Ay Carmela!
Donde sobra corazón,
¡Ay Carmela! ¡Ay Carmela!
Contraataques muy rabiosos,
Rumba la rumba la rumba ba.
Contraataques muy rabiosos,
Rumba la rumba la rumba ba
Deberemos resistir,
¡Ay Carmela! ¡Ay Carmela!
Deberemos resistir,
¡Ay Carmela! ¡Ay Carmela!
Pero igual que combatimos,
Rumba la rumba la rumba ba.
Pero igual que combatimos,
Rumba la rumba la rumba ba
Prometemos combatir,
¡Ay Carmela! ¡Ay Carmela!
Prometemos combatir,
¡Ay Carmela! ¡Ay Carmela!

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Mas músicas não ganham guerras. Aviões ganham.

Outra leitura

Foi o Smart Shade of Blue quem notou o fenômeno primeiro.

À medida que a Primeira Leitura vai se tornando uma revista cada vez mais direitista, vai se tornando também a principal referência na blogosfera de direita. É típico: menções a ela eram raras quando era uma revista equilibrada, densa e inteligente. Mas à medida que seu nível vai caindo, suas opiniões e posições vão ficando cada vez mais semelhantes às daqueles que até há pouco tempo cultuavam as previsões astrológicas de Olavo de Carvalho.

Sempre gostei da revista. Principalmente nos seus tempos de “República”, quando tentava ser a Economist brasileira, ela representava uma linha de pensamento clara, definida e honesta. Sua atitude diante do governo FHC, por exemplo, era o melhor exemplo disso: era abertamente crítica — como não poderia deixar de ser numa revista capitaneada pelos irmãos Mendonça de Barros, derrotados no processo de disputa política interna do governo — mas não simplesmente deletéria.

Com a saída dos Mendonça de Barros, Reinaldo Azevedo e Rui Nogueira, livres das amarras de escrúpulos, diminuíram a revista que construíram. Não só na linha editorial e política, que no período pré-eleitoral do ano passado partiu para a propaganda política de forma panfletária e torcendo fatos; a própria revista, como produto editorial, decaiu assustadoramente. Incluiu até uma seção chamada “Carpe Diem”, provavelmente para tentar conquistar uma parcela do público “rico e famoso”, como se não existissem outras revistas fazendo isso com mais competência.

De revista marcadamente ideológica, porém inteligente, a Primeira Leitura passou a ser pouco mais que um panfleto. Desceu de um patamar alto para chafurdar na lama tradicionalmente ocupada por jornais de interior, ligados a grupos políticos e mera correia de transmissão de seus interesses, menos que de seus pensamentos. Como comparação, basta pegar um exemplar da antiga República (julho de 2001) em que se dizia que “FHC terá aumentado em cerca de 3,7 milhões o total de desocupados do país desde que assumiu o comando da economia, em 1993” e comparar aos últimos números da Primeira Leitura, que ataca Lula por dizer que “o que conta não são os 2,8 milhões de desempregados, mas os ‘534 mil novos empregos’ criados de janeiro a abril, ‘o maior saldo positivo desde 1992’” (junho de 2004).

Apesar de tudo isso, da torção louca dos fatos em função de seus interesses eleitorais, a linha editorial da revista ainda tem lá seus méritos. Mantém alguns bons articulistas, como os correspondentes Eduardo Simantob e Fernando Eichenberg. A última edição traz uma boa entrevista com o Francis Fukuyama. Também mantém alguns inofensivos. O Caio Blinder, no Manhattan Connection ou na Primeira Leitura, é incapaz de um raciocínio original, e suas matérias costumam se resumir a um apanhado laudatório do que pensa a mídia mais conservadora dos Estados Unidos.

A maioria, no entanto, está tão à direita no espectro político que consegue deturpar de forma tão canhestra a informação a ponto de ser irritante ler seus textos. O Hugo Estenssoro, por exemplo, é o mais acabado retrato da direita neo-conservadora, embora seus constantes rompantes contra o finado comunismo demonstrem que de neo, mesmo, ali há muito pouco. Na edição atualmente nas bancas, ele escreve uma matéria sobre blogs, com erros de julgamento e conclusões extremamente tendenciosas. Em outra, é capaz de escrever mentiras delirantes sobre “a identificação incondicional da esquerda mundial com o fanatismo reacionário e terrorista de Osama bin Laden e o Taleban”.

Ou seja: a revista é cada vez mais a cara do Reinaldo Azevedo e do Rui Nogueira, o que quer dizer uma revista não mais atrelada a uma linha de pensamento, mas especificamente a um segmento de um partido político e plenamente engajada em uma disputa eleitoral. Isso prejudica o próprio conteúdo jornalístico da revista, que ao falar da Reforma Universitária diz que “o MEC fere a autonomia universitária impondo, por exemplo, eleição direta para reitores”. Obviamente a revista acredita que democrático e autônomo é o método em vigor, em que a Universidade vota uma lista tríplice e o MEC escolhe um deles — podendo escolher, claro, o menos votado. Além disso, como precisa caracterizar o governo Lula como autoritário, chama de imposição o que é uma reivindicação da comunidade universitária desde sempre. O conceito de democracia da revista é meio esquisito.

Sem dúvida, a Primeira Leitura ainda é um ídolo um tanto mais civilizado para essa direita que vive repetindo chavões neo-liberais do que o alucinado do Olavo de Carvalho — que, sintomaticamente, passou a escrever para a revista nesses novos tempos. Melhor para essa direita, sempre ignorante, que agora talvez consiga dar um verniz de inteligência e verdade factual às suas diatribes; mas pior, muito pior para a Primeira Leitura, despontando para um gueto do qual dificilmente sairá.

Parabéns à direita acéfala por substituir Olavo de Carvalho e suas alucinações pela Primeira Leitura e suas torções de fatos. E meus pêsames à Primeira Leitura.

Ainda o racismo

Emerson, desculpe, mas você fez uma confusão dos diabos. A citação da Constituição tem a ver com os poderes que o professor, desconhecendo as leis do país, negou ao presidente. Leia de novo o trecho. Não tem nada de anacronismo.

Quando você diz que “fazer declarações de indignação em relação a fatos do nosso passado histórico é muito fácil, difícil é combater efetivamente o racismo atual”, parece pressupor um antagonismo que não existe. Não é porque falar é mais fácil que isso deve deixar de ser feito.

Agora, é a postura em relação ao passado que define o presente. Essa idéia de compreensão desapaixonada é muito bonita, mas inexistente na prática. O artigo do professor pode ser comparado a outro, em que ele usa a mesma concepção de história e, pior, de sociedade para justificar sua oposição à instituição de cotas para negros. Com os mesmos argumentos que se contradizem e que, acima de tudo, entendem que a nossa sociedade é um paraíso racial porque negros não precisam andar na parte traseira dos ônibus.

Repetindo o que já disse no outro post: a partir do momento em que se reconhece a responsabilidade brasileira, o pedido de desculpas de Lula é um anacronismo tão grande quanto o pedido de desculpas da Igreja Católica aos judeus. E eu, pelo menos, acho que nunca é tarde para pedir perdão.

Além disso, é ingenuidade achar que basta colocar uma pedra no passado para que ele deixe de existir. Você falou que “pedir desculpas é uma maneira de fugir de problemas atuais como o próprio racismo”. Não poderia estar mais equivocado. O mesmo governo que pediu desculpas é o que está tentando estabelecer as cotas para negros e diminuir um pouco o abismo social onde eles estão; enquanto isso, o mesmo sujeito que atacou esse pedido é o que, negando o componente racial no estrato econômico, é contra a instituição de cotas porque isso é “nazismo”.

Seria ingenuidade demais achar que essa concepção deletéria não fornece a base ideológica para a “contra-proposta” sujeito. Lendo os dois artigos do sujeito tive a impressão nítida de que estava lendo algo muito semelhante àqueles inidicadores sociais da época da ditadura.

Quanto à “disputa de indicação de livros”, acho que você não entendeu, também. Eu disse que isso não significa nada, mas que a postura — que deve ser analisada especificamente — era arrogante. E tenho certeza de que ele leu muito mais livros sobre o assunto do que eu — até porque é assim que ele ganha a vida.

O detalhe é que o livro indicado pelo professor é de alguém que co-escreveu com ele um outro livro, “A Paz nas Senzalas”. Não sei na UERJ, mas na minha terra a gente considera isso uma certa desonestidade intelectual.

***

Cláudio, não subestime a África nem a julgue de maneira única. O que você falou vale para a África sub-saariana, e mesmo assim com exceções. O norte, no entanto, chegou a dominar boa parte da Europa.

Se você não sabe, muitos dos escravos na Bahia tinham um nível cultural muito superior aos seus senhores. Sabiam ler, por exemplo.

Racismos e outros tipos de preconceito

Nos últimos dias um artigo do professor José Roberto Pinto de Góes tem feito carreira na blogosfera, como aqui e aqui.

O artigo é um primor de preconceito, tanto racial quanto político. Não é difícil contestar a maioria dos parágrafos do artigo.

Não faz sentido os brasileiros pedirem perdão aos africanos (Lula crê que tem uma delegação nossa para fazê-lo, mas não tem)

Na verdade ele tem e o rapaz precisaria estudar um tiquinho de direito constitucional (e português também. Confira o significado de “mandato”). Um presidente tem delegação para fazer tudo o que está previsto pela Constituição e leis do país, e por analogia e necessidade tudo o que não for proibido por elas. Isso inclui pedir desculpas. E mesmo aqueles que, como parece ser o caso do professor, não votaram ou estão decepcionados com Lula precisam aceitar isso.

O gesto do presidente revela também — como dizer, sem parecer mal-educado? — um certo desconhecimento da história da escravidão moderna. A África nunca foi uma vítima passiva da maldade dos europeus. O comércio de escravos preexistiu à chegada dos portugueses e sempre foi um negócio controlado pelos dirigentes das sociedades africanas, até o fim. E só acabou porque os ingleses, no século XIX, resolveram não mais tolerá-lo. Se devemos (toda a Humanidade) alguma coisa a alguém, é um agradecimento à Inglaterra.

Esse é um dos argumentos que mais me incomodam quando se discute a escravidão no país. É uma diluição das culpas européia e brasileira. O fato de existir escravidão na África, e de o tráfico ser um negócio altamente rentável no continente, não nos exime de nossa própria responsabilidade.

É quase como dizer que se Maria foi estuprada por seu tio, e eu a estupro de novo, eu não tenho culpa.

Um dos erros mais graves dessa avaliação é jogar a maior parte da responsabilidade pelo tráfico negreiro nas costas dos europeus. Porque se houve um momento em que o Brasil alcançou proeminência econômica no cenário internacional foi quando dominamos o tráfico no Atlântico Sul, justamente no momento em que ele alcançou maiores dimensões.

Ao que parece a idéia é de que nós, brasileiros, não devemos desculpas porque também fomos vítimas do tráfico. Mentira. As grandes fortunas formadas graças ao tráfico, os grandes contratos de empreitada que possibilitaram aos traficantes brasileiros o fretamento de navios provam isso.

O recado a ser dado ao professor é simples: nós fomos responsáveis, e não interessa como a escravidão se dava aqui, se o compadrio (fenômeno explicado com graça incomum pela brilhante historiadora Kátia Mattoso em “Ser Escravo no Brasil”) amainava as coisas, se as chances de crescimento social eram maiores que em outros países, se somos ou não descendentes de escravos. Escravizamos milhões de africanos. A responsabilidade é nossa. Se pagamos até hoje um preço altíssimo por isso, paciência.

Quanto a agradecer à Inglaterra, até parece que a velha Albion era movida pelos mais belos ideais em sua cruzada emancipatória. Como se ela não tivesse, como o Brasil e como Portugal, inúmeras grandes fortunas formadas através do tráfico (um bom livro sobre o assunto é Bury the Chains, de Adam Hochschild, lançado recentemente), como se ela mesmo não tivesse sido a única responsável pela escravidão no que seriam os Estados Unidos; e como se o interesse dela em acabar com o tráfico negreiro não fosse, também, reflexo das necessidades de um país industrializado e exportador. Usando métodos, inclusive, muito semelhantes aos que os Estados Unidos usam hoje.

O Brasil foi o último país do mundo a abolir a escravidão não porque somos visceralmente racistas, como se repete por aí. Mas porque a escravidão era fortemente enraizada e não encontrava legitimidade em bases raciais.

Dizer que a escravidão não encontrava legitimidade em bases raciais é repetir aquele velho argumento de que o problema racial no Brasil é econômico, e não racial. Me recuso a discutir isso. Quando me mostrarem escravos holandeses no Brasil eu volto a discutir o assunto. O sujeito parte de uma base correta — a razão da escravidão era econômica — para fazer uma ilação completamente falsa– raça não desempenhou nenhum papel nisso.

Já a afirmação de que “somos visceralmente racistas, como se repete por aí”, é de uma idiotice atroz. Não se diz amplamente por aí que somos visceralmente racistas. Ao contrário, a afirmação mais comum é a repetição da idéia enganadora de que a escravidão “não encontrava legitimidade em bases raciais”. O professor consegue se contradizer em um parágrafo só.

Além do mais, o gesto não deixa de ser uma espécie de absolvição dos dirigentes africanos dos nossos tempos (Lula declarou que a atual miséria africana não se deve à “incompetência” dos africanos, mas à sangria do tráfico), que mantiveram e mantêm até hoje o povaréu nessa miséria.

Até poderia ser. Mas em sua análise brilhante ele esquece outra coisa: que muito mais que os atuais líderes africanos, os principais responsáveis pela situação da África foram as potências imperialistas européias, que incluem de Portugal à Bélgica e que exploraram o continente durante os últimos séculos. Como disse alguém (e esqueço o nome), apenas transferiram a exploração para o próprio continente africano.

É impossível avaliar corretamente a tragédia causada pelo imperialismo europeu na África. Seus maus governantes e seus problemas que parecem insolúveis são resultado direto da ruptura cultural causada por séculos de exploração.

Claro, isso não é culpa brasileira. Mas o exemplo não vale para desqualificar o pedido de desculpas brasileiro. Nem Lula pedia desculpas por isso.

O presidente Lula devia escolher melhor suas amizades, devia evitar a companhia dos que olham as pessoas e só enxergam fantasias do tipo “raça”, “classe”, “movimento” e tolices assemelhadas. Se os Orixás, ou o Deus dos Cristãos, lhes concedessem essa graça, não insultaria os mortos, pensando homenageá-los, nem ofenderia os vivos, supondo representá-los.

Traduzindo: todo o movimento negro organizado é composto por um bando de idiotas radicais, e aquele operário analfabeto não sabe do que está falando.

Finalmente: ainda que o presidente não tivesse o direito de pedir desculpas em nome do professor — e ele tem –, o professor tampouco teria o direito de achincalhar Lula em nome dos brasileiros. Eu não me senti ofendido. E certamente não conferi ao professor o direito de me prepresentar.

No fim das contas, a impressão que esse parágrafo passa — e aqui fica apenas uma impressão sem base alguma — é que esse artigo é basicamente a extrapolação de briguinhas e picuinhas do meio universitário para uma outra esfera.

P.S. Se o presidente tiver tempo, recomenda-se a leitura do livro “Em Costas Negras” (Cia. das Letras), do historiador Manolo Florentino. É bem escrito, tem método e contém mui interessantes informações acerca do assunto. Recomenda-se também Joaquim Nabuco, é claro.

O mui digníssimo professor da UERJ termina o artigo reforçando o velho preconceito sobre a burrice de Lula. Esse preconceito permeia todo o artigo, porque a todo momento ele — como dizer, sem parecer mal educado? — insinua o despraro de Lula para o exercício de suas funções.

Mas recomendar livros é fácil e eu também posso indicar, com a diferença de que não me sinto mais inteligente por isso (nem precisava: qualquer pessoa que leia esse artigo se sente menos burro): que ele leia “O Trato dos Viventes”, de Luiz Felipe de Alencastro. “A Vida dos Escravos no Rio de Janeiro”, de Mary C. Karasch, é outro bom livro. E ambos são da mesma editora que ele recomendou.

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O problema central do artigo é que ele embute, além de um sem número de análises mal feitas e tendenciosas, um preconceito enorme. É demagogia pedir desculpas por um passado remoto? Talvez. Mas se reconhecemos nossa própria responsabilidade da cadeia do tráfico, essa demagogia é tão grande quanto a de João Paulo II ao pedir desculpas pelo tratamento dado pela Igreja Católica aos judeus.