Rafael Galvão

Flower

Archive for the ‘Sexo, blogs e rock and roll’ Category

O esporte dos deuses

Da toalhinha de papel do McDonald’s:

Um campo de de golfe tem 18 buracos, e o jogador completa sua participação com até 72 tacadas.

Jogo idiota e desprezível.

Muito melhor é outro jogo que conheço. São só 3 buracos, e você pode dar quantas tacadas quiser.

Situação crítica, porém jeitosa

O Homem-Baile saiu da pista de dança.

O Ricardo Montero resolveu dar um basta, talvez temporário, a um dos blogs mais antigos que leio. Preferiu se dedicar ao Vidas e Imagens, um dos mais interessantes blogs nacionais. E saiu explicando, também, os motivos de seu enjôo com a blogoseira atual.

Em grande parte do que diz, o Ricardo está certo. A maioria dos blogs é ruim. Indo mais além, mesmo a maioria dos posts de bons blogs é ruim. A esmagadora maioria do jornalismo que se faz na blogoseira é de segunda mão, no mais das vezes filtragem e comentários sobre o que outra pessoa apurou. A maior parte dos textos é mal escrita. A maior parte da ficção é medíocre. A maior parte da poesia envergonharia Camões. A gente sabe disso. Todo mundo sabe disso. Se não se fala muito sobre o assunto — além de generalizações como as feitas acima, que não ofendem diretamente ninguém que não seja dono de um grande complexo de inferioridade — nem se dá nomes aos bois é porque, além de uma questão de educação e de prudência, a blogoseira funciona como um sistema de trocas, em que a formação de uma rede de influência é fundamental para que se defina um lugar num ranking imaginário para cada um. Ou seja: eu comento no seu blog, você comenta no meu, passamos a achar nossos respectivos blogs maravilhosos e por aí vai. Que ninguém se iluda: qualquer blog mais ou menos respeitado é o resultado de algum nível de engenharia social.

Portanto, tudo o que o Ricardo escreveu em sua despedida está essencialmente correto. Mas mesmo correto, é parcial.

Porque há o lado bom. Mesmo reconhecendo tudo isso que foi dito acima, ninguém é obrigado a fazer ou deixar de fazer parte de qualquer panela ou esquema de engenharia social. E isso é possível graças à grande qualidade da blogoseira: a diversidade. Mesmo a mais abrangente das listas acaba encampando apenas uma parte ínfima do que é publicado diariamente na internet. Tem muito mais aí fora para se ler.

O Interney Blogs, sob esse aspecto, é importante — por mais que a auto-promoção e o que identificam como “panelinha” possam incomodar. Eu, pelo menos, acho o IB uma grande iniciativa, extremamente louvável ao buscar o que muitos blogueiros gostariam de ter mas evitam confessar para não parecerem totais fracassados: a possibilidade de ganhar a vida escrevendo o que bem entendem, só isso. Se o IB vai ter sucesso ou não, não importa tanto assim. Assim como no resto da blogoseira, tem blogs bons e ruins. Mas a tentativa é valiosa, e o fato de terem um plano de negócios só pode ser bem vindo.

O mais importante, mesmo, é a diversidade. Se de um lado você tem um empreendimento claramente comercial como o Interney, com todos os defeitos que possa ter — como por exemplo a poluição visual, a perda de independência possível em alguns casos — e as muitas qualidades do projeto, tem também projetos de caráter diverso como o Verbeat ou o Apostos, e até mesmo os lordes botocudos do Wunderblogs. Sem falar na imensidão de blogs isolados, que não passam de meios de expressão de seus autores e que podem ser muito interessantes.

Tem, por exemplo, o Hermenauta mordendo os calcanhares do Reinaldo Azevedo, o chiahuahua da direita brasileira. É o tipo de coisa que só a internet possibilita: o contraponto, a diversidade de opiniões, o confronto de idéias (e por isso o seu é um dos melhores blogs do país, com o jeito canalha do Hermê de encher o saco daqueles de quem não gosta. Como diriam em Salvador, o Adriano é muito “nigrinha”).

No fim das contas, it’s only rock and roll. E eu, que não costumo comentar em blogs, que não faço questão de ganhar dinheiro além dos caraminguás que o Google AdSense pinga na minha conta para pagar a hospedagem e garantir uns livrinhos na Amazon, que me esforço muito para ser simpático e demonstrar ao mundo toda a doçura que mamãe me deu, que sou baiano e acho tudo divino maravilhoso, quero mais é ver o oco.

A bunda da mulher de John Lennon

Na livraria, aparece um livro chamado “Como John Lennon Pode Mudar Sua Vida”.

Não li o livro, sequer a orelha, mas tudo indica que seja um livro de auto-ajuda. E a síndrome dos livros de auto-ajuda tem chegado a absurdos quase inimagináveis. Talvez porque a arte de escrever algo do tipo exige a observância estrita de algumas regras.

Por exemplo, não se pode ser muito original. É preciso dizer algo com que o leitor não apenas concorde, mas em que já tenha pensado antes. Auto-ajuda, no fundo, é apenas uma forma de bajulação do leitor, ainda que injustificada. É um elogio à mediocridade. O talento do escritor de auto-ajuda é o talento do redator, de alguém capaz de dizer o que já foi dito de maneira convincente.

E então chegamos a John Lennon.

Ao ver o livro fiquei imaginando o que, exatamente, John Lennon teria a me oferecer. Conheço razoavelmente sua vida, como os leitores provavelmente sabem. Um amigo, por sinal, filmou o sujeito esvaindo-se na noite de 8 de dezembro de 1980. Era produtor da MCA, passava por perto, ouviu os tiros e correu para lá. Não que isso aumente ou diminua meu conhecimento biográfico sobre o finado, mas demonstra, de certa forma, o meu interesse no assunto. Ou talvez nem isso: vai ver contei apenas para me vangloriar de conhecer uma testemunha do crime. Freud explica. Ou Adler.

O fato é que conheço razoavelmente a vida do sujeito, do número 251 da Menlove Avenue ao quinto andar — ou melhor, à calçada — do Dakota Building.

E talvez por isso me sinta autorizado a dizer que qualquer livro que pretenda ensinar a viver a partir do exemplo de John Winston Ono Lennon é uma fraude.

Afinal, o que se pode aprender com a vida de Lennon? A se viciar em heroína? A ser um pai abominável, tragédia agravada pelo fato de ter feito um bom trabalho com o segundo filho, só porque este teve uma mãe mais exigente? A ser uma pessoa insegura, agressiva e assustada, alguém que compensava sua personalidade detestável com um carisma impressionante?

Eu não quero aprender a viver assim. O mais grave, no entanto, ainda não foi dito.

Na contracapa de Two Virgins, primeiro disco da dupla, Lennon e Yoko Ono aparecem nus, de costas. E a verdade trágica então se revela, uma verdade feia, triste: a bunda dele é mais bonita que a dela. Não que alguma das duas preste para alguma coisa, mas a bunda dela é mais feia que a dele.

Então é isso que Lennon tem a me ensinar? A casar com uma mulher com uma bunda mais feia que a minha? É a isso que chamam ensinar? Porque um homem que se casa com uma mulher cuja bunda é mais feia que a sua é indigno desse nome, indigno como o pipoqueiro que oferece o primeiro cigarro de maconha ao garotinho da terceira série. Um homem tem o direito de casar com seios grandes ou pequenos, rijos ou flácidos; mas nunca, mas jamais poderá casar com uma mulher cuja bunda é mais feia que a sua. Esse não é um homem, não merece o direito de coçar o saco. Esse não é um homem.

Em verdade, não importa quão feia ou bela seja a bunda dela. Não. Este não é um conceito absoluto, porque toda bunda — quase toda — tem seus atrativos, suas graças. O que importa é apenas que ela seja mais bonita que a dele. O contrário é um crime contra bilhões de anos de evolução da espécie. É um crime contra as gerações que virão. Um casamento desse tipo só pode ser celebrado em um beco escuro na zona do cais do porto por um bêbado inconsciente e possuído por Belial — não, por uma legião de demônios, dos piores e mais malvados e mais cruéis que possa haver.

Aos homens que se casam com mulheres cujas bundas são mais feias que as suas já é reservado um justo castigo, o de não saberem em sua plenitude o que é encostar-se à bunda dela sob o chuveiro, com a mão ensaboada sob a dobra do seio; mas esse ainda não é castigo suficiente.

Um homem que se casa com uma mulher cuja bunda é mais feia que a sua melhor faria se dormisse com cabras; e deveria ser justamente apedrejado por homens que depositariam suas vestes aos pés de Saulo de Tarso — e talvez tenha sido esse o crime de Santo Estêvão, casar com uma gentia cuja bunda era mais feia que a sua; e o crime de Madalena seria ter uma bunda mais feia que aquele com quem deitou em adultério, e a Bíblia teria escondido tudo isso porque é um livro de bondade e de perdão, paz na Terra às mulheres de bunda mais feia que a dos seus maridos.

(Mas no caso de Madalena o verdadeiro culpado é aquele que a cobiçou, pois não está em seu direito ao desejar a mulher do próximo quando a bunda dela é mais feia que a sua.)

Talvez eu exagere, mas tenho a impressão, sempre tive, de que Lennon tinha absoluta consciência do crime tenebroso cometido, e por isso cantava “Imagine que não há propriedades”; porque se não tivesse casado com uma mulher cuja bunda era mais feia que a sua, Lennon saberia que ela — a bunda, não a mulher — é sua propriedade única e absoluta, a ser guardada zelosamente com cerca elétrica e cães de fila. Mas Lennon não sabia de nada disso, não poderia, e tinha que se contentar em ser um sonhador. A falta que faz uma mulher cuja bunda é mais bonita que a sua.

Não, John Lennon não tem nada a me ensinar, o livro se me afigura inútil. A única coisa que Lennon poderia me ensinar seria a compor obras-primas, mas um livro não pode me ensinar a ter talento. E sobre o que é realmente importante, a capacidade de adorar a verdade calipígia, ah, sobre isso aquele rapazinho de Liverpool não tem nada a me dizer.

Originalmente publicado em 20 de julho de 2006. Esse texto deveria ter sido publicado no mês passado, durante a maratona de republicações, mas por alguns motivos teve que ser suspenso. Como é um texto de que gosto muito, ele vai agora.

As bem-aventuranças

Volta e meia recebo o mesmo e-mail indignado, sempre com assinaturas diferentes.

No e-mail dizem está sendo produzido um filme mostrando Jesus Cristo como gay e apaixonado pelos seus discípulos. O e-mail indignado esbraveja que isso não pode ser tolerado. Que podem solapar tudo, até a cara da sua irmã, mas que jamais poderiam fazer isso com Jesus de Nazaré. E se propõe um abaixo assinado para combater essa heresia tão grande e ignominiosa, proposta pelo visto seguida por centenas de pessoas, às quais esperam que você se junte. Uma espécie de cruzada virtual.

Eu não costumo responder porque, em primeiro lugar, isso tem cara de hoax. Sensação reforçada pelo fato de o e-mail ser antigo e até agora não ter saído nos cinemas ou pelo menos nos jornais nada do tipo.

Além disso, independente da minha visão sobre o assunto, em vez de tentar proibir que o filme seja feito as pessoas têm o direito somente de não querer assistir — e até mesmo de tentar convencer outras pessoas a fazerem o mesmo.

Mas isso me deixou com umas idéias rodando a minha cabeça vazia.

Por que as pessoas se incomodam tanto com isso? Não se incomodam tanto com sugestões de que Jesus foi amante, namorado ou mesmo marido de Maria Madalena. Mas qualquer insinuação de homossexualismo é recebida assim.

É por não conseguir responder satisfatoriamente essas perguntas que fico pensando numas coisas. É um pequeno exercício de imaginação, e imaginar não ofende ninguém.

Imagine Jesus Cristo fazendo sexo com Simão. Imagine-o de quatro, enquanto o belo apóstolo segura a sua cintura e o possui com força e desejo.

Imagine Jesus Cristo deitado sobre Bartolomeu, cujas pernas abertas envolvem a bunda de Jesus Cristo, mãos crispadas em suas costas, gritando e trocando saliva e gemidos.

Imagine Jesus Cristo deitado ao lado de Tiago filho de Zebedeu, ambos suados, felizes, e Jesus beija o peito de Tiago com o abandono dos amantes satisfeitos.

Imagine Jesus Cristo se apaixonando por Tiago filho de Alfeu, e abandonando um Judas que se sente traído e o entrega aos romanos com um beijo que sela, acima de tudo, o amor e a traição.

Agora imagine Jesus Cristo ajoelhado diante de João, o apóstolo que ele amava, boca aberta recebendo a boa nova. Imagine-o se levantando, limpando a barba do erro de cálculo ou excesso de ímpeto, se dirigindo ao alto de um pequeno monte e falando:

Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o reino dos céus.

Bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados.

Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra.

Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça porque eles serão fartos.

Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia.

Bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus.

Agora vem a pergunta.

As palavras se tornam menos verdadeiras para quem acreditava nelas, depois de tudo o que se imaginou aqui? Realmente importa o que Jesus, que tantos bilhões dizem seguir, fazia durante suas noites?

Deixem o Cristo dar o cu em paz.

Por que eu não compraria uma Playboy com uma blogueira na capa

Porque para conseguir foto de blogueira nua basta um pouquinho de conversa.

Um conselho para o Igor

Comentário de um rapaz, que se diz chamar Igor, neste blog:

EU TENHO O TICO PQNO E NAUM MACHUCO AS GURIAS NA HORA DE COME-LES. O Q EU FAÇO PRA ELAS SE GOZAREM TUDO?
OBRIGADO

Caro amigo Igor,

Em primeiro lugar, parabéns pela tua delicadeza. Pode parecer bobo, mas delicadeza é fundamental nessas horas. As pessoas querem ser cuidadas, sempre; e a única forma de cuidar é delicadamente.

Mas por ter um tico pequeno tu não saberás o que é uma moça reclamando que és um grosso, um monstro, mas reclamando com um sorriso ofegante e satisfeito. Talvez jamais venhas a saber a mulher ostentando marcas roxas em seu seio como quem ostenta medalhas de guerra, talvez ainda mais satisfeita por não poder mostrá-las.

É possível que me concedas um pouco de tua condescendência, talvez me ouças e abras teu coração para minhas palavras, se eu te disser que também não sei. Este fica sendo o nosso pequeno segredo. Então poderei falar contigo como se fosse de igual para igual, sem que aches — enquanto olhas para o teu tico acanhado — que estou sendo sarcástico ou mesmo paternalista, se é que há paternalismo possível em se tratando de ticos, grandes ou pequenos.

Saiba, Igor, que compreendo tua dor. De que vale toda essa delicadeza, toda essa candura, se com um tico pequeno a ausência de dor evoca nas meninas outra ausência, a de algo que as preencha, que as eleve a alturas tão desejadas; se elas anseiam por algo que lhes faça sentir a pujança do macho tomando posse do que é seu. Por mais delicadeza que lhe confessem prezar, elas ainda são mulheres — e talvez já saibas instintivamente que esperam que sejas homem, que tenhas pelo menos um pouco de rudeza, que saibas pegar e apertar e marcar sua pele e sua carne.

Tivesses um ticão, e não um tiquinho, talvez esta conversa fosse diferente. Talvez eu te falasse de um nível aceitável e desejável de dor; talvez eu te contasse que o segredo está aí, nesse equilíbrio entre a doçura e a selvageria. Talvez eu te falasse dos elementos que compõem a posse necessária, do desempenho adequado de papéis instintivos entre um homem e uma mulher.

Mas tens um tiquinho, somente, e apenas a tua doçura para compensar. Doçura que podes cultivar com carinho, como uma vingança contra a natureza. Tua doçura, Igor, pode ser o que há de mais humano em todos nós: a vitória da humanidade sobre a natureza, a persistência de um homem que vence suas próprias limitações e se ergue, impávido, sobre todas as dificuldades com que um Deus sádico resolveu tornar mais árduo seu caminho para o paraíso.

Então, Igor, só lhe resta aceitar tuas limitações e fazer dela tua força. Se não tens o creme de leite, que sejas apenas goiabada.

Se o que tens a teu favor é a doçura, é a delicadeza, é o cuidado em não machucar a mulher que se põe ao seu dispor, desarmada e ansiosa, então sejas absolutamente doce, delicado, cuidadoso. Se o tiquinho parece pouco, se isso não as faz gritar como se estivessem caindo do paraíso, sejas doce, dulcíssimo. Mas lembra-te, caro Igor, que tu não tens apenas um tico, ainda que pequeno. Tens também dez dedos, e dez é um número tão grande, é uma infinidade. Tens uma língua — e se queres que eu te conte um segredo, uma língua pode e deve valer mais do que dez, do que vinte dedos.

E talvez aí, Igor, no dia em que tiveres aprendido que tua língua pode ser tua grande amiga, no dia em que ela fizer as moças ofegarem e gritarem como teu tico nunca fez, então talvez possas deixar de lado um pouco dessa doçura, e esquecer que um dia tudo o que podias dizer com orgulho é que não machucavas as gurias.

O sumiço das bichas

De uns tempos para cá Hollywood vem se especializando no homossexual da nova era, e a sociedade vem se dando tapinhas nas costas com seus bons sorrisos hipócritas por ver seus preconceitos diminuírem. A visão de si mesmos no espelho, de uma sociedade cada vez mais liberal e tolerante, é corroborada pela aceitação do que chamam de “amor entre dois homens” e que Oscar Wilde, mais sinceramente, chamava de “o amor que não ousa dizer seu nome”.

Talvez ela até esteja certa, e aceite mesmo que dois homens façam sexo entre si. Mas se forem duas bichas, ah, mona, aí a coisa muda de figura.

Viados e sapatões fazem parte de uma comunidade literalmente singular. Se você é pobre, pode ter a certeza de contar com o apoio de ricos que vão aliviar sua culpa defendendo melhor distribuição de renda, desde que não toquem no deles. Se você é mulher, vai aparecer um bocado de homens defendendo os seus direitos (e, talvez, tentar te comer depois, que isso é bom para todo mundo e faz bem para a pele). Se você é negro, uma porção de brancos vai cerrar fileiras ao seu lado contra o racismo.

Mas se você é gay, você vai estar sozinho.

Movimentos de defesa dos direitos dos homossexuais, como o Dialogay de Sergipe, não costumam contar com o apoio claro de outros setores do que chamam de sociedade civil organizada. Se fazem uma passeata, não se vê heterossexuais nelas — isso quando fazem, porque uma passeata de bichas e sapatões deve ser prato cheio para vaias e ovos podres. Para a maioria dos heterossexuais, bichas e sapatões podem até não ser mais aberrações, como já foram, mas ainda são incômodos. Algumas vezes justamente.

E nesse processo, parece ter se tornado fácil aceitar os dois extremos mais visíveis. Por um lado o homossexual que não trai os códigos comportamentais de seu sexo, como o viado com pose de homem e a sapatão de batom; por outro a caricatura, inofensiva de tão estridente, como a drag queen. Então a sociedade elogia os viados machos de Brokeback Mountain e se diverte na parada gay de São Paulo.

Este último caso é um dos mais interessantes. Porque ali não há mal nenhum. Porque desde que o carnaval é carnaval as pessoas vão aos montes para bailes gays, e se travestem em desfiles como os das Muquiranas em Salvador. Porque as bichas encapsuladas em paetês são engraçadas. Porque a partir do momento em que a coisa se assume como festa e paródia não há mais ameaça. As paradas gays são apenas um carnaval fora de época.

Enquanto isso o mito propagado por Brokeback Mountain, e outros tantos filmes que tratam ou tocam na temática gay, acaba sendo o de que viadagem é aceitável, desde que os homens falem grosso e as mulheres se mantenham femininas. A sapatão barra pesada, de calças baixas e pose de Humphrey Bogart sem saco, está automaticamente banida da imagem sanitizada do novos gays hollywoodianos.

No fim das contas, esse estereótipo do viado comportado de Hollywood é confortavelmente anódino. A única coisa que os diferencia de heterossexuais comuns é o fato de, à noite, dividirem sua cama e seus fluidos corporais com outros homens. Não há sequer uma sombra da bicha louca que usa jeans apertados e fala sibilando afetação. Fazendo uma comparação com o movimento negro, é como se seus defensores brancos definissem como padrão aceitável apenas os mulatos clarinhos.

Apesar das aparências, Brokeback Mountain não mostra gays; não tem sequer a gayety que lhes deu o nome. Mostra apenas uma variedade de amor e sexo perfeitamente aceitável por uma sociedade que se sente desconfortável ao lidar com algo que foge aos seus padrões.

Até há pouco tempo — antes que o politicamente correto levasse os bobos a acreditar que chamar alguém de “diversamente orientado sexualmente” o tornava menos viado e que homófobos iriam deixar de espancá-lo –, o termo preferido pelos gays americanos para se auto-definir era queer, “esquisito”. Partia do reconhecimento de que ser gay não era apenas manter relações homossexuais, mas também ostentar um comportamento diferente. Uma bicha não está dentro dos padrões de uma sociedade baseada na família nuclear. E ao evitar tocar no direito dos homossexuais de assumir um comportamento diferente, filmes como Brokeback Mountain podem acabar reforçando o preconceito, definindo o padrão pelo qual homossexuais devem ser julgados.

É muito fácil aceitar homossexuais machos como Heath Ledger e Jake Gyllenhaal (aparentemente mais machos até que eu, este velho porco chauvinista odiado por pseudo-feministas de caixas de comentários, porque eu não falo grosso daquele jeito), ou lésbicas extremamente femininas e bonitas como as que de vez em quando colam um velcro discreto nas novelas das oito. Levantar a voz para dizer que não não vê estranheza nesses casais é muito fácil, porque isso não representa nenhuma superação dos próprios preconceitos. Difícil, mesmo, é se sentir à vontade — ou pelo menos tolerar, de verdade — com a bichona que mora no apartamento do lado e tem um comportamento que, definitivamente, lhe incomoda — aquelas festas noite adentro ao som de Maria Bethânia e risadas quase histéricas. A bicha cheia de trejeitos, escandalosa, às vezes apenas uma caricatura de mulher, essa não aparece nos filmes, a não ser como motivo de riso. Porque, se aparecesse, não despertaria os mesmos bons sentimentos em uma sociedade que, por mais que se orgulhe de defender obviedades como a união civil homossexual, ainda cuida para que seus filhos mantenham distância do tio viado.

Mas, voltando a Hollywood, o que parece estar acontecendo é curioso. Se esse modelo se afirmar, o que parece ser um avanço social vai se tornar um retrocesso enorme. Porque a partir dele, as bichas acabarão perdendo o direito de ser bichas.

Originalmente publicado em 4 de abril de 2006

Pensamento do dia de Rafael Galvão

Sexo anal é amor fedidinho.

Originalmente publicado em 30 de outubro de 2005

Daqueles que usam sapatos maiores que seu pé

Comentário a um post sobre o nêmesis deste blog, o pinto pequeno:

q besteira de vcs tudo por causa do tamanho. q merda é essa o meu é pequeno tamabem e daí?
Por: marcao | junho 29, 2007 11:12 PM

Marcão? Marcão?

A primeira vez que vi Vanusa Spindler

O Ina me pede para falar das cinco capas inesquecíveis da Playboy.

Eu não sou exatamente um leitor da Playboy. E se fosse, preferiria a americana, com uma posição política clara e um engajamento social, dentro do contexto americano, que falta à versão nacional, periódico vagabundo que finge ser revista para gente fina quando não passa muito de material para punheteiros.

Cinco capas inesquecíveis, portanto, talvez seja algo que não dê para lembrar. Mas há uma, uma só, que não me sai da cabeça, nunca saiu, uma de que me lembro a primeira vez em que a vi. O tempo não parou de passar — são quase 20 anos –, e eu ainda lembro exatamente daquele momento. Epifanias não são algo muito comum na vida da gente.

Ainda lembro da primeira vez que vi Vanusa Spindler. 1989, primeiro semestre — olhar a capa agora me aviva a memória, era junho, aquele mês de luz suave e ar fresco. Eu vinha andando pelo Campo Grande, quase em frente ao teatro Castro Alves, vindo da Vitória e indo para o Forte de São Pedro. Então tive uma visão, numa banca de jornal.

Ela estava lá, de semi-perfil, mas olhando para mim — ou assim queriam que eu acreditasse, e eu acreditei; acreditei em tantas coisas naquela manhã. Vestia um macacão vermelho de corrida de carros — eu lembrava dela com macacão vermelho, e é assim que ela vai permanecer –, aberto o suficiente para deixar seus seios à mostra.

Ver os seios de Vanusa Spindler pela primeira vez é como ver o mar pela primeira vez, é como ver o Rio de Janeiro pela primeira vez, é como ter bebido leite azedo a vida inteira e só então descobrir o mel. É como dar o primeiro beijo, é quase como saber, pela primeira vez, o que é estar dentro de uma mulher.

Com Vanusa Spindler uma geração inteira descobria que a perfeição existe e é possível.

Me apaixonei, perdidamente, irrecuperavelmente. Vanusa — antes um nome tão feio, mas de repente um som angelical que fazia promessas que deveriam ser sempre cumpridas, com aquele sorriso que ela dava para mim. Eu comprei aquela revista. E se a capa era apaixonante, as fotos no miolo eram daqueles que definem uma vida.

Não eram só os seios da Vanusa Spindler. Havia mais, muito mais. A boca, os pêlos — ah, os pêlos –, tudo naquelas fotos evocava dias e noites trancados, isolados do mundo, ela vestida com a sua maior camisa, que nela chegava aos joelhos, e acordando com a cabeça coberta por causa do frio do ar-condicionado; ou sentada na beira do sofá, quase caindo — há tantas imagens que podem ser lembradas agora, depois que 20 anos se passaram. A Vanusa lhe fazia imaginar coisas que você procuraria pelo resto da vida.

Isso foi há quase 20 anos. São essas duas décadas que me fazem ter uma certeza: eu não gostaria de ver a Vanusa Spindler novamente. 20 anos, quase, costumam ser cruéis para seios — mas são violentamente sádicos com seios que só existem assim, como quimera, como um ideal platônico inalcançável; a inveja do tempo de sua beleza arredondada e firme. E quando o tempo implica com algo como os seios da Vanusa Spindler, supernovas que por definição brilham incomparavelmente por um átimo e se apagam para nunca mais, então o seu trabalho mesquinho é ainda mais perverso. Supernovas cegam, e é essa cegueira que me faz ter certeza de que não, eu não quero ver o que o tempo trouxe para essa mulher, tenha sido ele bom ou malvado.

Tudo isso para não esquecer da primeira vez que vi Vanusa Spindler.

You are currently browsing the archives for the Sexo, blogs e rock and roll category.