Nos comentários ao post anterior, em geral as críticas mais pesadas ao governo evitam citar fatos, com exceção do Júnior que coloca palavras nas bocas dos outros comentaristas para refutá-las. Ficam na generalização, na indignação fácil, na conexão forçada entre uma crise pela qual o governo é, sim, responsável e um acidente que poderia ter acontecido em qualquer aeroporto do mundo.
Faz-se isso porque é fácil. Há uma crise grave, que se prolongou por inépcia do governo. Qualquer crítica à postura do governo é bem recebida porque há uma predisposição a culpar o governo por qualquer coisa, e uma imprensa que trabalha essa predisposição diuturnamente.
Mas um mínimo de honestidade é necessário. Que se critique o governo por aquilo em que ele realmente tem responsabilidade, como faz o Sergio Leo, embora eu discorde em aprte da lógica final. Ou que, no que diz respeito especificamente ao acidente, se critique a postura de Lula nos momentos que se seguiram. O presidente cometeu um erro grave ao não ir imediatamente para Congonhas, como fez o Serra. O mais engraçado é que a sua reação — a de convocar uma reunião para discutir o assunto — é em princípio mais útil do que ir ao local do acidente, porque ali não havia nada a fazer além de dar a impressão de solidariedade. Qualquer um sabe disso; mas sabe também do “Princípio de Pompéia”: à mulher de César não basta ser honesta, tem que parecer honesta.
Pode-se também criticar a atitude do Marco Aurélio Garcia e do Bruno Gaspar. (O MarcosVP chega a falar em “equívoco moral” e cobra respeito à família dos mortos, e termina o post dizendo: “E ACM finalmente morreu. Menos um pulha nesse mundo.” O MarcosVP expressa no post suas certezas ideológicas e seu prazer em ver a morte de alguém. Mas abriu uma brecha para que a família do finado e alguns milhares de baianos que idolatravam o defunto possam dizer dele a mesma coisa: “A frase é um equívoco moral”.)
Obviamente, é mais fácil reclamar de integrantes de um governo que, no meio de uma crise que não sabe administrar, fica aliviado por ser eximido de uma responsabilidade que não é sua. Bem mais fácil, por exemplo, do que reclamar daqueles que, desde o início, utilizaram o episódio para enfraquecer o governo através de um grande sofisma. Claro que os assessores fizeram uma grande imbecilidade: em tempos de sítio, podiam ter fechado a cortina. Agora, dizer que aquilo é um chute no povo é se fazer de ingênuo e fingir que não existe uma luta política. As coisas não são tão simples. No momento em que se soube do acidente, já se começou a dizer que, fosse de quem fosse a culpa, ela seria do governo. É só ver o Reinaldo Azevedo, que fez dez posts descendo a lenha no governo para só então lembrar de prestar suas condolências às vítimas. Ninguém está descansando.
O nome disso é política. Não é jogo de inocentes e ninguém espera que seja. O que os assessores comemoraram, ali, foi um lance nesse jogo: o de que, caso aquela informação fosse confirmada, seria mais difícil imputar ao governo a responsabilidade direta pelo acidente. Por isso é canalhice esperar que a imprensa bata no governo e lhe impeça ao menos o direito de ficar feliz porque uma jogada não vai dar certo Quando o MarcosVP reprova o gesto do Marco Aurélio alega uma tal de “liturgia do cargo” (só um parêntesis: o assessor não ganha para representar o povo deste país. Quem representa o povo são os deputados estaduais e federais. O assessor é pago para servir ao povo através de seus representantes). Bobagem. Era um momento privado. Daqui a pouco o Marco Aurélio vai ser proibido de ir ao banheiro do Planalto porque, “na liturgia do cargo”, um assessor do presidente não pode se arriscar a esquecer de trancar a porta e ser pego por uma câmera da Globo com as calças arriadas lendo o Correio Braziliense.
Outra parte dos comentários traz de volta o fantasma de FHC. Diz que se fosse com FH a “PTzada” estaria fazendo uma festa. Quem diz isso tem memória curta e pouco conhecimento, porque isso já aconteceu em Congonhas. Naquela época não se falou na responsabilidade direta do governo, embora já se criticasse o simples fato de Congonhas estar onde está. A mesma crítica ainda cabe ao governo.
Mas, no fim das contas, colocar na crise aérea a culpa por um acidente trágico continua sendo um grande sofisma. Sobrecarga, tráfego — tudo isso só valeria se o avião estivesse em um momento em que esses elementos (que existem e que são, sim, responsabilidade do governo) influenciassem diretamente no acidente. O governo tem toda a responsabilidade pela crise. Mas não tem responsabilidade específica pelo acidente com a TAM.
O GPC fez uma pergunta ingênua: “o que quer dizer exactamente isto: ‘todo mundo que vai a São Paulo faz pressão para pousar em Congonhas’? Quem? Como?” Ele não parece ter ido para São Paulo alguma vez na vida e tido a chance de escolher entre Cumbica e Congonhas. Não deve fazer idéia da distância do aeroporto de Guarulhos; acha que todos os governos, presente e passados — e aqui não se está desculpando o governo Lula pelo seu quinhão –, sobrecarregaram Congonhas pelo simples fato de gostarem do nome, ou de serem afeitos ao singelo esporte da roleta russa. Mas provavelmente sabe o que é lei de mercado, e como é natural que as empresas aéreas, sabendo da demanda, façam pressão para levar a maioria dos vôos a um lugar que, na minha opinião, só deveria receber a ponte aérea.
Mas o GPC fez um comentário não tão ingênuo assim: “A censura ou filtragem dos comentários a posteriori é obviamente imprescindível, mas a pré-aprovação não. Soa a censura, a uma rigidez desnecessária, a uma nefasta tendência fascistóide.”
E aqui eu vou mais uma vez repetir o que já disse tantas vezes: me enche o saco quem cobra democracia na casa dos outros. O blog é meu, os critérios são meus. Isto aqui não é repartiçào pública nem puteiro de interior. Eu decido o que é publicado automaticamente, o que é moderado e o que vai para o lixo, assim como decido quem entra ou não na minha casa. Não ofereço justificativas além da minha livre, soberana e caprichosa vontade e de uma certa crença na propriedade privada. E eu adoro ser chamado de fascistóide.