É sempre igual: eu chego a Fortaleza e antes mesmo de ir ao hotel vou à Livro Técnico da Floriano Peixoto, que sempre tem livros em promoção. Foi o que fiz dia 3.
Cheguei lá e a loja estava fechada, com o aviso pregado na porta: “Abriremos às 10 horas. Motivo: falecimento da genitora do proprietário”. Três palavras que detesto: falecimento é morte, genitora é mãe, proprietário é dono. Já passaram das 10 horas, e vejo que vai demorar. Lá vou rodar o centro da cidade enquanto espero abrir.
A espera foi recompensada com uma boa colheita. Muitos livros novos em promoção, o paraíso para mim.
Desta vez trouxe nove, fora alguns infantis:
- A Luta, Norman Mailer;
- Eu, o Júri, Mickey Spillane;
- Púbis Angelical, Manuel Puig;
- Trevas de Luz, Richard Zimler;
- Ripley Debaixo D’Água, Patricia Highsmith
- América, T. Coraghessan Boyle;
- Grana, Martin Amis;
- A Declaração, Brian Moore;
- Os Jornalistas, Balzac
O livro da Highsmith comprei porque gosto da série de Ripley, do Brian Moore porque o acho um bom escritor menor, do Spillane para tirar uma dúvida, o Balzac porque compro qualquer Balzac de olhos fechados, e o resto porque nunca li nada deles e estava na hora de conhecer. Com exceção de Puig e de Mailer, comprei porque estavam ali. Tem gente que escala o Everest porque ele está lá, como disse a Lucia Malla. Eu compro livros sem certezade que são bons porque estão lá e são baratos; prefiro comprar 20 livros desses a dar 100 reais em “Sobrados e Mucambos”, porque é desaforo. Cada louco com sua mania. Teria trazido mais, mas daqui a dois meses vou estar lá novamente e quero ter algo para comprar. Sou um homem de hábitos e profundamente consumista, como se pode perceber.
Brian Moore, como já disse, é um bom escritor menor. Já tinha lido dois livros dele, dois thrillers também comprados nesse esquema de saldão. Este é o melhor. Conta a história de um velho, criminoso de guerra na França de Vichy, e sua fuga de gente que precisa da sua morte.
O mais interessante no livro é que é um dos poucos que conheço que falam da ambigüidade inerente ao colaboracionismo francês durante a II Guerra. Não se prende a estereótipos do tipo “Resistência boa, colaboracionistas maus”, mas não se perde no relativismo ético de achar que colaboracionistas eram excelentes pessoas. Apenas mostra que tudo sempre foi mais complexo do que parece, que aquilo tinha raízes profundas na sociedade. Moore escreve um bom thriller, que vale a pena ler.
O livro de Highsmith é bonzinho, como qualquer Ripley, mas é mais fraco do que o outro da série que li. Só isso. Bom entretenimento, e só.
O livro de Mailer é maravilhoso. É uma belíssima reportagem sobre a luta de Muhammad Ali e George Foreman no Congo, então Zaire, em 1974. É brilhante em sua forma, honesta ao assumir que torce por Muhammad Ali (e quem não torcia?). E foi um livro que me deu algumas idéias.
O livro de Spillane apenas confirma que ele é inegavelmente ruim, e assim minha dúvida é dirimida. É curioso, porque estruturalmente ele é um bom escritor noir. Está tudo ali, tudo nos lugares certos. Tem a qualidade de fazer seu herói — um detetive particular, o que mais? — ser amigo da polícia, o que parece mais plausível que os eternos detetives marginais de praticamente todos os outros livros. Suas femme fatales são muito boas; a deste livro quase se compara a Brigid O’Shaughnessy.
Mas isso é tudo. O resto é um sadismo e uma quase onipotência de Mike Hammer que, já na segunda página, o tornam pouco crível. Qualquer pessoa que se comportasse de maneira tão canalha com todo mundo seria morta em 2 dias, mas Spillane parece não perceber isso. Mike Hammer não passa de uma caricatura grotesca em um gênero necessariamente esquemático. É melhor do que a maioria do noir que se faz hoje em dia. Mas muito pior do que o que se fazia em sua época.
O livro é de 1947. Hammett já tinha escrito o Antigo Testamento do noir, Chandler estava escrevendo o Evangelho, MacDonald começava o seu Apocalipse. Spillane conseguiu escrever a “Cartilha do Dízimo”.