Fazendo a feira

É sempre igual: eu chego a Fortaleza e antes mesmo de ir ao hotel vou à Livro Técnico da Floriano Peixoto, que sempre tem livros em promoção. Foi o que fiz dia 3.

Cheguei lá e a loja estava fechada, com o aviso pregado na porta: “Abriremos às 10 horas. Motivo: falecimento da genitora do proprietário”. Três palavras que detesto: falecimento é morte, genitora é mãe, proprietário é dono. Já passaram das 10 horas, e vejo que vai demorar. Lá vou rodar o centro da cidade enquanto espero abrir.

A espera foi recompensada com uma boa colheita. Muitos livros novos em promoção, o paraíso para mim.

Desta vez trouxe nove, fora alguns infantis:

  • A Luta, Norman Mailer;
  • Eu, o Júri, Mickey Spillane;
  • Púbis Angelical, Manuel Puig;
  • Trevas de Luz, Richard Zimler;
  • Ripley Debaixo D’Água, Patricia Highsmith
  • América, T. Coraghessan Boyle;
  • Grana, Martin Amis;
  • A Declaração, Brian Moore;
  • Os Jornalistas, Balzac

O livro da Highsmith comprei porque gosto da série de Ripley, do Brian Moore porque o acho um bom escritor menor, do Spillane para tirar uma dúvida, o Balzac porque compro qualquer Balzac de olhos fechados, e o resto porque nunca li nada deles e estava na hora de conhecer. Com exceção de Puig e de Mailer, comprei porque estavam ali. Tem gente que escala o Everest porque ele está lá, como disse a Lucia Malla. Eu compro livros sem certezade que são bons porque estão lá e são baratos; prefiro comprar 20 livros desses a dar 100 reais em “Sobrados e Mucambos”, porque é desaforo. Cada louco com sua mania. Teria trazido mais, mas daqui a dois meses vou estar lá novamente e quero ter algo para comprar. Sou um homem de hábitos e profundamente consumista, como se pode perceber.

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Brian Moore, como já disse, é um bom escritor menor. Já tinha lido dois livros dele, dois thrillers também comprados nesse esquema de saldão. Este é o melhor. Conta a história de um velho, criminoso de guerra na França de Vichy, e sua fuga de gente que precisa da sua morte.

O mais interessante no livro é que é um dos poucos que conheço que falam da ambigüidade inerente ao colaboracionismo francês durante a II Guerra. Não se prende a estereótipos do tipo “Resistência boa, colaboracionistas maus”, mas não se perde no relativismo ético de achar que colaboracionistas eram excelentes pessoas. Apenas mostra que tudo sempre foi mais complexo do que parece, que aquilo tinha raízes profundas na sociedade. Moore escreve um bom thriller, que vale a pena ler.

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O livro de Highsmith é bonzinho, como qualquer Ripley, mas é mais fraco do que o outro da série que li. Só isso. Bom entretenimento, e só.

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O livro de Mailer é maravilhoso. É uma belíssima reportagem sobre a luta de Muhammad Ali e George Foreman no Congo, então Zaire, em 1974. É brilhante em sua forma, honesta ao assumir que torce por Muhammad Ali (e quem não torcia?). E foi um livro que me deu algumas idéias.

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O livro de Spillane apenas confirma que ele é inegavelmente ruim, e assim minha dúvida é dirimida. É curioso, porque estruturalmente ele é um bom escritor noir. Está tudo ali, tudo nos lugares certos. Tem a qualidade de fazer seu herói — um detetive particular, o que mais? — ser amigo da polícia, o que parece mais plausível que os eternos detetives marginais de praticamente todos os outros livros. Suas femme fatales são muito boas; a deste livro quase se compara a Brigid O’Shaughnessy.

Mas isso é tudo. O resto é um sadismo e uma quase onipotência de Mike Hammer que, já na segunda página, o tornam pouco crível. Qualquer pessoa que se comportasse de maneira tão canalha com todo mundo seria morta em 2 dias, mas Spillane parece não perceber isso. Mike Hammer não passa de uma caricatura grotesca em um gênero necessariamente esquemático. É melhor do que a maioria do noir que se faz hoje em dia. Mas muito pior do que o que se fazia em sua época.

O livro é de 1947. Hammett já tinha escrito o Antigo Testamento do noir, Chandler estava escrevendo o Evangelho, MacDonald começava o seu Apocalipse. Spillane conseguiu escrever a “Cartilha do Dízimo”.

Por que falo mal dos anos 80

Matéria no Globo (via Neosaldina com Coca-Cola) cita o autor de um livro sobre aqueles anos:

Quem falava mal da década de 80 tinha dor-de-cotovelo. Especialmente os que viveram os anos 70 e começaram trabalhar e a ter responsabilidades nos 80. A geração dos 80 foi a primeira que não teve uma expressão ideológica. Foi uma década de pouca preocupação e muito divertimento para a juventude – avalia Alzer, que saiu dos anos 80 com 19 anos.

O sujeito deu uma definição esquisita daqueles anos. Foi nos anos 80 que o movimento sindical renasceu, que a ditadura militar se esfacelou, que o Muro de Berlim caiu — e não tiveram expressão ideológica? Os anos 80 foram os anos da vitória definitiva do capitalismo e o fim da utopia para muitos, e possibilitou a loucos como Francis Fukuyama proclamarem “o fim da História”.

Passei boa parte dos anos 80 envolvido com política estudantil, e obviamente sou suspeito para falar; para mim, a alienação é um prêmio duramente conquistado. Mas a verdade é que a segunda metade dos anos 80 foi uma época de agitação política, em que o país se reencontrava com a democracia. E muita gente boa participou dela. E não custa lembrar da crise econômica. A coisa ficou tão braba naqueles anos que se colocou em desuso uma palavra — carestia — porque ela já não dava conta do que acontecia. A tal alienação encontrava o seu limite no bolso.

O fato é que qualquer década é de pouca preocupação e muito divertimento para quem é adolescente, e mesmo quando não é acaba se tornando algo do tipo, porque a memória vai selecionando os fatos passados e transformando uma época miserável, como costuma ser a adolescência, nos tempos mais felizes que se viveu. Mas daí a fazer uma comparação tão boba vai uma distância muito grande. Os sujeitos provavelmente imaginam que todo adolescente nos anos 70 pegou em armas, e esquecem — ou não sabem — que a maior explosão de hedonismo aconteceu justamente naquela década: a discoteca. Eles não foram considerados “a década do eu” à toa.

Na verdade, o que se viu nos anos 80 foi outra coisa: um processo de fragmentação social irreversível, aprofundado nos anos posteriores. No caso dos autores do livro, sua “tribo” específica podia ser tudo isso: alienada, inconseqüente, talvez fútil. Mas ela não respresenta os anos 80.

Além disso o livro tem alguns erros. O computador não se popularizou nos 80, e sim nos 90; durante aquela década computadores eram caros, para ricos e para uns poucos aficcionados. Os anos 80 apenas viram a chegada dos micro-computadores ao mercado brasileiro. E Kichutes eram mais usados nos anos 70; os 80 viram seu ocaso.

Por mim, eu continuo falando mal dos anos 80. Eu evitava ouvir rádio porque não suportava a música — até hoje aquele som de bateria, com caixa muito amplificada, me dá arrepios, e apenas uma cresceu com o tempo: Like a Virgin, de Madonna, é uma bela canção pop –, só via televisão tarde da noite (com exceção de algumas minisséries como “Anos Dourados”). Era velho demais para gostar de Xuxa ou do Balão Mágico. Não vi Top Gun, Rambo II, The Breakfast Club ou Ferry Bueller’s Day Off no cinema — e com exceção dos dois últimos, achei tudo um lixo (mas assisti a “Eu”, de Walter Hugo Khouri, e fiquei sabendo que o avô de Marcelo tinha um belo e invejável slogan: “Io se non chiavo non mi diverto“). Um dos meus orgulhos é ter passado incólume pela moda daqueles anos: acho que descobri cedo demais que jeans, camiseta branca (na época com dizeres tipo “Liberdade para Lamia”) e tênis são atemporais. Não usei calça verde-limão, roupa da OP ou tênis quadriculados. Meu passado, que me condena em tantas coisas, me inocenta desses pecados.

Para mim os anos 80 foram chatos, só isso.

De arquitetos e de estantes

Sempre reclamei de uma coisa simples: arquitetos, pelo que se vê nas revistas de decoração, não sabem desenhar estantes.

É impressionante. Fazem coisas desproporcionais, pouco práticas, feitas para quem não tem o costume de ler mas quer mostrar seus livros. Por isso a melhor estante que vi até hoje nessas revistas de decoração não foi desenhada por um arquiteto, e sim por um jornalista. Prateleiras grossas para agüentar o peso dos livros, portas corrediças de vidro fosco (para diminuir a incidência de luz e a poeira, inimigos eternos), e armários embaixo porque quem lê um pouco costuma guardar papéis — não me perguntem por quê. As outras, desenhadas por arquitetos, costumam ser basicamente mostruários de uns poucos livros de mesa e objetos de decoração.

Mas dia desses, lendo uma revista, cheguei à conclusão de que não é culpa exclusiva deles.

O apartamento mostrado é o de uma assessora de imprensa. Nas estantes alguns livros, talvez não cheguem a 100. Uma olhada com atenção mostra que a moça, afinal, pode viver de escrever, mas não lê absolutamente nada.

Entre os livros, a maioria são didáticos, inclusive uma coleção de literatura que praticamente todos os estudantes usaram no segundo grau no final dos anos 80, e livros típicos da faculdade. Alguns livros de referência, como um antigo dicionário do MEC de inglês — o número de manuais e dicionários de inglês mostram que ela fez curso, e levou muito a sério; talvez trabalhe em uma empresa onde inglês seja realmente necessário. Fascículos encardenados, desses que acompanham revistas ou jornais. Um tiquinho de auto-ajuda, nada que comprometa a dignidade de ninguém. Uma constituição, daquelas de bolso distribuídas a rodo em 1988 (sempre que as vejo lembro que a minha é mais chique: é encadernada com uma inscrição com o meu nome, “Acadêmico Rafael Galvão”, e dedicatória de um dos constituintes). Uma edição de “Hans Staden”, o indefectível “Brasil: Nunca Mais”, as (excelentes) biografias de Assis Chateaubriand e do Barão de Mauá, uma edição antiga de “Olga”, um livro de Nelson Rodrigues.

Os livros da mulher, embora delatem sua idade — tem lá seus 35, 40 anos –, são o que se poderia chamar de corretos. E é justamente aí que está o seu problema.

Eles não passam disso. São os livros que todo mundo leu, que fizeram parte das conversas de bar. Livros que se lê como quem lê jornal, para se manter atualizado. Mas nem esses são garantidos. Às vezes fica a impressão de que a mulher não lê absolutamente nada.

A pista está em uma coleção que O Globo e a Folha de S. Paulo lançaram ano passado. É provavelmente a melhor dessas coleções que acompanham periódicos, e que a indústria conhece genericamente como fascículos. Capa dura, belo projeto visual nas sobrecapas, excelentes traduções, e uma seleção que mais acerta do que erra (“Cem Anos de Solidão”, “Lolita”, etc.).

É uma bela coleção. Tão bela que ela sequer tirou o plástico que os envolve.

A culpa pelas estantes pouco funcionais, definitivamente, não é apenas dos arquitetos.

Arrufos

O casal de namorados chega à piscina, ela na frente, ele atrás. Calados, cabeças baixas, olhos duros. Ela se senta na borda, ele mergulha e vai para o outro lado, para a parte funda, e fica de costas para ela, queixo e braços apoiados na borda, dez metros de água azul entre eles.

Sentada, balançando os pés na água, ela olha para o namorado que lhe dá as costas ostensivamente. Ela funga algumas vezes, controlando o choro.

Imóvel, ele continua do outro lado da piscina, de costas para ela.

Fecho o livro e tiro o olho da minha filha e da minha sobrinha que brincam perto dela. Olho para os dois, ele imóvel, ela de cabeça baixa olhando para ele.

O que está em jogo agora é quem vai ceder primeiro, quem dará o passo para a reconciliação. Ele está apenas negociando sua rendição, vendendo mais caro a reconciliação em troca da mágoa que ela talvez lhe tenha causado. Mas continua imóvel, fingindo uma dor maior que a que sente.

Ela não agüenta muito tempo. Entra na piscina e vai até ele. Fica do seu lado, faz um carinho em sua cabeça, fala alguma coisa, beija seu ombro. Passa a mão em suas costas, sorri entre triste e acanhada, beija novamente seu ombro.

E então ele se rende, sabendo-se vencedor da pequena guerra sem importância, agora homem e feliz por seu blefe ter funcionado. Beija a namorada com carinho, com um olhar apaixonado e grato. Talvez, durante aqueles poucos minutos em que uma piscina representou a maior distância que pode separar um casal de namorados adolescentes, eles tenham julgado que tudo tinha acabado, e cada um desempenhou o seu papel com a maestria instintiva dos apaixonados.

Minha câmera está na minha mão, mas não tenho coragem de fotografar o casal. A beleza em tudo isso é justamente o fato de que, sem uma foto, essa pequena briga nunca existiu, e por isso se repete, dia após dia, casal após casal, e sempre tão igual.

Viva — A Vida Em Um Ato

Só a estréia da peça do Cauê, na última quinta-feira, poderia tirar de casa este eremita em véspera de viagem.

“Viva — A Vida Em Um Ato” é a estréia do Cauê como dramaturgo, uma peça escrita há cerca de 15 anos, como fico sabendo após o final. É um monólogo de Benedito, um soropositivo interpretado por Luiz Carlos Reis que recapitula a sua história, a partir do momento em que se descobre portador do vírus da Aids.

Os principais problemas da peça se revelam logo nos primeiros 10 minutos. O texto é excessivamente literário. É um belo texto — se lido. Mas ouvido, com todos aqueles “paras” e construções pouco coloquiais, ele se torna artificial, forçado.

O “para” é uma implicância pessoal, e que se repete durante toda a peça. Ninguém fala “para”, fala “pra”.

Talvez um ator com um desempenho melhor pudesse evitar algumas das armadilhas apresentadas pela forma do texto. Mas esse não é o caso de Luiz Carlos Reis. Seu desempenho é ruim, é típico de teatro amador. É artificial, brinca pouco com o texto. Ele se entrega pouco, e interpretação depende fundamentalmente disso.

A peça cresce, no entanto, quando deixa um pouco de lado o diálogo de mão única com a morte e faz com que Benedito questione a sua própria existência, algo muito além da Aids: a sombra do vírus está, claro, sempre presente, mas é apenas parte de algo muito maior: a vida. É a parte que me pareceu autobiográfica, em que o Cauê deu mais de si — e é aí que a peça se torna mais rica, mais densa, mais verdadeira. Aqui Benedito questiona não mais a proximidade da morte, mas a seus amores, sua sexualidade, suas relações com o mundo e, principalmente, com a família. E o ator sente isso: é nessa parte — felizmente a de maior duração da peça — em que ele quase se solta, em que dá alguns lampejos de realmente se identificar com o papel. Sua atuação continua ruim, dura. Mas quando em vez se vê de relance um toque de naturalidade, de confiança no texto que está interpretando, de entrega. É quando um ator se deixa levar pelo autor que as boas obras se criam. Agora nem mesmo ele pode evitar isso, porque a verdade que a peça transmite então é tão forte que mesmo um ator limitado como ele consegue se sair melhor.

E nesse momento “Viva” é brilhante, porque é verdadeira e universal. Benedito se torna mais complexo e adquire mais empatia quando esquece que tem que chamar a morte para as vias de fato. Em seu acerto de contas consigo mesmo — e não mais com a indesejada das gentes — Benedito passa um tom agridoce que consegue emocionar e divertir. A vida é isso.

No final aqueles mesmos problemas voltam: o texto se torna novamente excessivamente literário, um tom de declamação com que o ator evidentemente se atrapalha. Mas agora há um outro problema — que o próprio Cauê identificou: a fala final é panfletária, abusa de alguns clichês de sobreviventes, de declarações insolentes de amor à vida.

A direção de Tetê Nahas, em uma peça feita evidentemente com poucos recursos, é muito boa. Alguns pequenos defeitos de timing, e principalmente de direção do ator, mas no geral, na concepção da peça, não faz feio. Há excelentes sacadas, como tornar um mero banco praticamente ums egundo personagem. O cenário é fraco, minimalista em excesso, mas compensado pela boa iluminação.

O resultado final é que Viva vale, sim, a pena.

Do meu medo de advogados

A Lulu me mandou um e-mail com algumas recomendações jurídicas para blogueiros. São os excelentes conselhos do Túlio Vianna.

Dei uma olhada no blog e não consegui achar nada potencialmente contencioso, ofensivo, seja lá a palavra que usem.

Com exceção das alegrias do Google.

E agora fiquei com medo.

Aposto que o sujeito que veio para cá atrás de “fotos pornô das mães tiradas pelos filhos” vai me processar.

A guerra dos links

Meu pitaco, atrasado como sempre — eu sou baiano, não gosto de pressa — na “Guerra dos Links” que o Alexandre causou há algumas semanas:

O pessoal está dando muita importância a sidelinks.

De qualquer forma, eu sou suspeito para falar. Este blog está lá no alto da lista do Alex. Passo horas conversando com ele, sobre coisas sérias e sobre bobagens. Se fosse para tomar um partido, seria o do Alex, simples. Se não por amizade, por uma questão de lealdade: o LLL é quem mais traz visitantes a este blog. Muitos dos leitores regulares de Rafinha Galvão, com toda a doçura que mamãe lhe deu, vieram através do Alex.

Mas no final, a impressão que ficou em mim foi a de que todo mundo tem um pouco de razão. O Alex tem razão em querer que linkem para o blog dele (e sim, eu concordo que é uma questão de educação linkar de volta; alguém pensa em não devolver um “bom dia” em um elevador só porque não foi com a cara do desconhecido que disse isso ao entrar?); por outro lado, o pessoal tem razão em dizer que isso não se cobra (e sim, eu acho que linka quem quiser, por quaisquer razões).

Quanto a mim, eu linko de volta quem me linka. É simples assim. Coloco os links em ordem alfabética, com exceção do LLL e do Tiro e Queda, do Bia, que estão lá por razões muito pessoais — o Kit Básico da Mulher Moderna também estaria, se a Tata lembrasse que tem um blog. Não serei eu a tentar definir qual blog é melhor ou pior; não me acho capaz, e além disso a classificação alfabética é a mais democrática que conheço.

Não custa nada. Em princípio, linko por uma questão de gentileza e de gratidão, porque alguém considerou o meu blog bom o suficiente para ser recomendado. Mas a vida é engraçada e tem umas coisas de uma tal seleção natural. Uma olhada nos links e eu vejo que gosto de ler os blogs linkados aqui.

Diarinhus online de meninas muito migaaaaaaaaas não me linkam, sei lá por quê. O que é uma pena. Porque eu adoraria trocar figurinhas com essas menininhas gostosinhas de 19 anos que chamam a gente de “mô”.

***

Meu cabotinismo, segundo meus amigos, é enorme. (Eles só dizem isso porque não conhecem o Alexandre.) Mas apesar disso não acho que haja tanta diferença assim, que meu blog seja tão melhor ou pior que todos os outros. É só um blog, tem bons e maus dias.

Isto posto, deixa eu comentar um dos comentários (do Iraldo, que tem um blog/fotolog engraçadíssimo). Ele discordou da parte do decálogo do Alex em que ele dizia algo como “se você não gostar do blog, não volte”.

Não sei se entendi o que o Iraldo quis dizer. Mas tenho uma filosofia simples. Se vejo um blog de que realmente não gosto, eu simplesmente deixo de ler. Uma coisa é gostar do que lê e discordar; outra é simplesmente não gostar e resolver brigar por isso.

Se gostei e discordei, é claro que me acho no direito de comentar sobre isso, de explicar porque discordo. Acho também que isso é uma forma de colaborar, de acrescentar algo ao diálogo. Mas há uma longa distância entre discordar, e apresentar seus argumentos, e sair dizendo que o autor do tal post é um babaca. (De vez em quando aparecem por aqui alguns desse tipo, que eu libero de acordo com o meu humor no dia. Ontem liberei um que me chamava de imbecil, mas eu ando em estado de graça nos últimos dias e pelos próximos dois meses, me xinguem do que quiserem.)

Portanto, para mim é melhor não ler. O número de blogs excelentes aumenta a cada dia. Em vez de perder tempo batendo boca, é melhor passar adiante. É mais fácil viver assim. Dizer que quem escreve um blog está necessariamente sujeito a isso é bobagem; é como dizer que se eu sair de casa não posso reclamar de ser assaltado.

Há mais de 15 anos, quando eu queria ser jornalista, fui entrevistar um senador (ainda tenho a entrevista; é vergonhosa). O sujeito, já velhinho, me deu uma das melhores lições de vida que eu recebi: “Rafael, o segredo da vida é fazer muita raiva aos outros, mas nunca ter raiva”. Ele tinha razão.

Update: acabei de ver os comentários no blog do Alexandre, ainda sobre esse assunto. Continuo achando que todo mundo tem lá suas razões. Assim como também continuo achando que estão dando importância demais a sidelinks. Você realmente gosta de um blog? Fale dele. Diga por que gosta. Linke um post que você achou particularmente bom.

Cenas do Próximo Capítulo

Há uns onze, doze anos eu escrevia alguns programas para uma rádio do interior de Sergipe. Foi antes do e-mail, e eles eram enviados por fax. Ainda tenho alguns arquivados. Me bati com um deles dia desses e lembrei que me divertia muito escrevendo os danados. Os primeiros programas, que não deixaram traços, eram uma cozinhada do noticiário que interessava à região, notícias devidamente copidescadas de jornais da Bahia, Sergipe, Alagoas e Pernambuco. Esse era sério.

O que não se pode dizer de outro programa, diário: “Cenas do Próximo Capítulo”, com as sinopses dos capítulos das novelas daquele dia. Foram os únicos que restaram. Na época a novela das oito era “Fera Ferida”, a de Flamel. Entre os personagens havia um casal formado por uma vitalina chamada Ilka, interpretada por Cássia Kiss, e um ex-jogador de futebol chamado Ataliba, por Paulo Gorgulho.

A sinopse original dizia o seguinte: “Ataliba vai tomar chá na casa de Ilka”.

Acontece que o tal Ataliba era impotente e o chá era pretensamente afrodisíaco. A versão rafaeliana ficou assim: “O ex-jogador, ex-conquistador e ex-homem Ataliba vai tomar um chazinho na casa de Ilka. Como já deu pra notar, Ilka tá louca pra resolver o problema de Ataliba, que é pra ver se Ataliba resolve o dela.” Deveria ser lida em tom de paródia, mas se eu conhecia bem os locutores — um dos quais assassinado por questões políticas alguns anos depois –, o resultado devia ser muito mais trash que o texto.

Outro programa, semanal, era sobre fofocas de artistas. Uma espécie de “Contigo no Ar”. E foi por causa desse que consegui arranjar uma confusão. Um sujeito não gostou de uma nota sobre Michael Jackson — acredite, esse programa era muito, muito mais debochado que o das novelas. Durante algumas semanas fui aconselhado a não pisar na tal cidade.

Não que dizesse falta, claro. Uma cidade em que as pessoas compram briga por causa de Michael Jackson não pode valer a pena.

Shakespeare do século XX

O grande momento de “Júlio César” é a eulogia de Marco Antônio diante do cadáver de César. E logo no começo do seu discurso (Friends, Romans, Countrymen, lend me your ears), preparando a tempestade que vai causar a desgraça de Bruto e de Cássio, ele fala com ironia: For Brutus is an Honourable man / So are they all; all Honourable men.

(Melhor que ler a peça é ver o filme de 1953, com Brando interpretando Marco Antônio; você vai descobrir por que Shakespeare era genial e por que Brando era o maior dos atores.)

Em 1992, Gil Gomes apresentou uma de suas reportagens no Aqui Agora. Contava a história de um assassinato, obviamente. Em determinado momento, diante de depoimentos que diziam que todos os três envolvidos (inclusive o defunto) eram boas pessoas, ele olhou para a câmera em sua camisa de surfista, cara de areia mijada, mão que se mexe como quem alisa um cabeção e voz de Vincent Price:

“Um bom, dois bons, três bons — mas um morreu.”

Gil Gomes é Shakespeare para as massas.

Molto bella

4 da manhã do sábado e vou fazer o check out no hotel. Desço com minha filha dormindo no meu colo.

Na recepção dois italianos bêbados com um saco plástico com água e cerveja. Com eles estão duas mulheres: uns vinte e poucos anos. Uma, a que tem cabelos mal pintados de louro e uma tatuagem tribal imensa no cóccix, é cearense, pelo sotaque; a outra pode ser de qualquer lugar entre o Rio Grande do Norte e Sergipe. As mulheres preenchem o formulário de check in da Embratur.

Os italianos estão bêbados. Passam a mão pelos corpos das mulheres, as beijam com ardor, mostram aquela lascívia de quem passou a noite em busca de algo que finalmente vão conseguir. Seus movimentos tentam ser fluidos, a fluidez da embriaguez, e mostram a falta de força, de punch dos europeus. Amantes que se querem sensuais, mas que não vão satisfazer suas eleitas, pelo menos não aquelas.

As mulheres conversam esporadicamente entre si, ocupadas consigo próprias. Não olham para mim nem para a minha filha no meu colo.

“Ele me chamou de molto bella, molto bella“, diz a morena para a loura, com a entonação cínica de quem já ouviu aquilo muitas vezes, e há muito deixou de acreditar.

O italiano que fala mais alto encosta-se com força na bunda da loura, os mesmo movimentos fluidos e embriagados e fracos, passa a mão onde pode beija seu pescoço. Mal consegue esperar subirem para o quarto.

Quando o elevador fecha a porta, olho para o funcionário do hotel com o mesmo sorriso cínico da morena ao espalhar aos quatro cantos que tinha sido achada molto bella, molto bella.

“Freqüência boa, a daqui.”

O funcionário olha para mim, se desculpando com um meio sorriso envergonhado:

“A gente não pode negar o check in, pode ser processado por discriminação. É difícil acabar com a prostituição desse jeito.”

Eu não falo mais nada, mas começo a pensar em evitar o Ibis das próximas vezes que for a Fortaleza; talvez jogue fora meu cartão de fidelidade da Accor. E como minha filha estava dormindo posso me permitir rir dos italianos, que saem do lugar onde vi mais mulheres bonitas por metro quadrado para passar uma noite inteira atrás de duas prostitutas baratas em Fortaleza, e então voltar à sua terra vangloriando-se de suas aventuras sexuais na terra da luz e da luxúria.