House, MD

De vez em quando vejo “House”, seriado exibido pela Universal.

House, para quem não assiste à TV a cabo, é uma espécie de “ER” com um personagem central grosso e malvado. É um médico pretensamente genial, aparentemente capaz de diagnósticos brilhantes enquanto faz algo totalmente diverso da atividade médica, geralmente no final de cada episódio. Por exemplo, alguém fala sobre a barriga do Ronaldinho e ele descobre a cura para a Aids, coisas assim.

As pessoas assistem a House e se empolgam com os termos técnicos que ele usa. “Faça um HDGDSF agora!” “Faça uma rinostomia, uma histerectomia e uma tomografia!” — desculpe se os termos são confusos ou inexistentes: o que sei de medicina se resume às palavras “Novalgina” e, agora que tem genérico para tudo, “Dipirona”. Mas se não entendo nada de medicina, tenho certeza de que a maioria das pessoas que vêem aquele seriado também não entendem que diabo é aquilo. Elas assistem assim mesmo, como assistiam ao mais chato dos seriados, “ER”. Assim como eu, essas pessoas não sabem dizer o que há de verdade ali, não sabem quantas daquelas doenças com nomes esquisitos e sintomas idem são reais ou não. Nesse aspecto, os tantos fãs de House que existem por aí agem igualzinho aos seguidores de Jim Jones. Não importa o que o sujeito diz: é verdade, tem que ser verdade.

Talvez seja por isso que elas não conseguem perceber que House não é tudo isso que dizem dele.

Primeiro: House é um pé-frio. É provavelmente o maior pé-frio que eu já vi. É garantido. Você está com uma dor de cabeça, ou uma virose, ou uma indisposição qualquer — digamos que você está constipado — e tem a falta de sorte de cair nas suas mãos: é o seu fim, e eu choro por você e aviso à sua família para comprar o caixão e alugar um espaço na capela e contratar as carpideiras. Porque o seu destino é negro: em pouco tempo você vai desenvolver uma porção de sintomas que no mundo normal são incomuns e vai acabar com uma doença de nome impronunciável, algo como Síndrome de Hathaway-Nguyen-Hodges, ou Doença de Bangor-Sminörezk. Você vai começar a sangrar, ter convulsões, seu xixi vai ficar verde, você vai ficar com a cara da Linda Blair em “O Exorcista”. Como um Walt Disney da morbidez, ele poderia dizer ao olhar o cadáver mutilado e irreconhecível de um dos seus pacientes: “E tudo isso começou com uma simples dor de cabeça”.

Se House não é pé-frio, é o maior olho gordo que eu já vi. Pior que o sujeito que matou uma vaca do meu avô só de olhar para ela. O sujeito vai para as mãos de House e então começa a definhar, a definhar e quando vê já está na UTI.

Se algum dia eu ficar doente, por favor não me levem para House. Eu gosto da vida.

House é uma grande, uma enorme fraude. Sejamos francos: o que há de genial em fazer um bocado de exames computadorizados para descobrir o que o sujeito não tem? House corta um pedaço do cérebro de um sujeito e fica feliz: “Ele não tem o Mal de Robson-Clark!” Arranca dois terços do intestino de uma moça, e “Que bom, ela não tem a Doença de Lescaut-Donnerville!” A gente tem que admitir que mais cedo ou mais tarde House vai chegar a um resultado, provavelmente quando não restarem mais alternativas nem maneiras de tirar pedaços do corpo de alguém.

A única dúvida é saber se vai sobrar também algo do paciente.

Se alguém conseguir me explicar o que há de genial nisso, eu agradeço. Até porque duvido que House fosse capaz de descobrir que um sujeito tem esquistossomose apenas apalpando a sua barriga. Não gosto muito de médicos, acho uma classe canalha, mas vamos ser justos: os médicos aqui do Nordeste, acostumados a tratar gente que padece de uma fome atávica e secular, são muito melhores que o doutor capenga.

Aainda assim as pessoas assistem ao seriado, e compram seus DVDs nas Americanas, e não é só aqui. É triste que House faça mais sucesso que Francisco Cuoco em “Obrigado Doutor”, mas não estamos sozinhos: na França, House se tornou sinônimo de sedutor. Em Paris, um romance policial de Hugh Laurie, o ator que faz o papel do médico escroto, foi lançado com estardalhaço. As mulheres suspiram por ele.

No entanto suspiram à toa, porque House é gay.

House não gosta de mulheres, trata-as com arrogância, desprezo, até as raias do inconcebível. No mundo real House já teria levado tanto tapa que até hoje estaria procurando onde foi parar o seu nariz.

Tem uma mulher lá, uma doutora que parece ser a chefe de House no hospital e que segundo ele tem uma bunda de respeito. A mulher é louca para dar para o sujeito — mas ele não come. Incapaz de dar amor, ou coisa mais básica, ele dá apenas o seu sarcasmo. Cada um dá o que tem. Uma das doutorazinhas quis dar para ele — mas ele não comeu. É um padrão que se repete em excesso.

É uma coisa lógica: se House é assim genial, se todo mundo acha ele brilhante, em um hospital cheio de médicas gostosinhas e enfermeiras bonitinhas, se fosse homem macho do sexo masculino já tinha passado o rodo. “Vamos discutir o linfoma de Kotler lá em casa”, e as moças o seguiriam com um sorriso beatífico. Mas ele prefere soltar piadas agressivas, humilhar as moças sem razão. Tem uma doutora lá com cara de russa que é linda e promíscua — mas, imagine, ele não come. Ah, por favor.

A homossexualidade de House é tão evidente. Olha o caso daquela doutora, a sua chefe. O sujeito vive fazendo alusões à sua bunda. Mas não são um elogio, não são um galanteio, não são sequer a frustração de um desejo. São apenas agressão, são sem sentido, não têm aquela coisa verdadeira e sentida de peão de obra que olha uma moça feia e sem graça — mas com os atributos mínimos toleráveis, dois peitos e uma bunda — e diz com olhos apertados “Você é a nora que mamãe pediu a Deus”. Não. House diria que ela é burra — e isso é triste, porque qualquer homem neste mundo sabe que não existe mulher burra, pelo menos não enquanto ele ainda não comeu.

Misoginia tem limites, mas a de House é tão grande que deveria soar o sinal de alarme em qualquer mulher com o mínimo de senso. Isso não acontece, entretanto. Cheguei à conclusão de que o seriado trabalha com um sentimento que as mulheres não admitem em público porque têm vergonha e que Nelson Rodrigues, em uma das frases mais profundas e mais mal interpretadas da história da literatura brasileira, resumiu ao dizer que “toda mulher gosta de apanhar, só as neuróticas reagem”. É por isso que elas não percebem o que é óbvio, gritantemente óbvio: House é apaixonado por Wilson, o oncologista bonzinho e recalcado que o trata com excessiva condescendência e delicadeza (o que mostra, desde logo, quem é que tem ascendência na relação) e que é interpretado por aquele moço que fez o rapaz sensível em “Sociedade dos Poetas Mortos”.

Wilson é tão obviamente gay que é impressionante que as pessoas não comentem isso. É também é o grande amor da vida de House. E retribui esse amor em igual medida. Mas talvez para evitar que as milhares de mulheres que suspiram pelo sujeito (e erroneamente o chamam de cafajeste, quando ele é um homem que apenas reprime os seus desejos e transforma essa repressão em agressividade) desistam do seriado, tentam passar a imagem de um médico heterossexual que no entanto se recusa a comer alguém. House prefere passar seu tempo livre assistindo a shows de destruição de caminhões, o que, definitivamente, é coisa de quem quer afetar uma masculinidade inexistente. Em um episódio Wilson não quis assistir o tal show com ele — e então House se transformou em uma bicha vingativa e maldosa, e perseguiu os outros amigos de Wilson. O moço é possessivo.

Eu tenho uma sugestão para o seriado. Deveriam fazer House assumir sua paixão por Wilson. Ele se tornaria uma pessoa melhor. Trataria as pessoas com mais civilidade, porque falta de sexo deixa as pessoas nervosas e irritadas. Se isso acontecesse, House deixaria de ser um apenas médico com algum acordo com os donos do hospital onde trabalha e que rouba o Estado pedindo exames e mais exames; e o mundo seria mais feliz.

Bobagem em temperatura de fervura

“Presságio” é um dos piores filmes feitos por Hollywood nos últimos tempos.

Perto de “Presságio” “O Dia Depois de Amanhã” é um grande filme, “Eu Sou a Lenda” é um clássico e M. Night Shyamalan é Ingmar Bergman em “O Sétimo Selo”. “Presságio”, estrelado por Nicholas Cage, é uma grande bobagem criacionista, provavelmente escrita por alguém que cresceu assistindo aos programas de Jimmy Swaggart e Rex Hubbard nas manhãs de sábado e que tentou pegar uma caroninha nos filmes tipo The Mist ou aquele último do Shyamalan.

Oficialmente a sinopse do filme é a seguinte: astrofísico que perdeu a mulher há pouco tempo e cria sozinho o filho encontra um papel, escrito 50 anos atrás por uma menina que ouve vozes e colocado numa cápsula do tempo, em que estão previstas boa parte das grandes tragédias sofridas pelo mundo no último meio século. Ele decifra o código e tenta evitar que as últimas tragédias antecipadas ali aconteçam.

Essa é a versão que pessoas mal intencionadas passariam. Gente que não quer o seu bem e que, inconformada por terem caído nessa pegadinha, quer que você caia também. Mas o filme pode ser descrito de outra forma, mais verdadeira e mais caridosa com as pobres almas que porventura tenham a infelicidade de pensar em assisti-lo.

“Presságio” conta a história de um pé-frio que aonde vai leva destruição e morte. A desculpa para isso são as tais profecias — mas é mentira, o sujeito é que é agourento, mesmo. Depois que ele acha o papel, uns sujeitos com caras de fantasmas passam a seguir seu filho — um monte de tarados pedófilos que andam com umas pedrinhas pretas, talvez símbolo fálico disfarçado, eu não sei. Mas mesmo o medo do que possa vir a acontecer ao seu filho não o impede de causar acidentes onde passa: derruba um avião, descarrilha o metrô de Nova York — e o pior é que o desgraçado nunca morre. Em busca da verdade, ele vai atrás da filha da doidinha que escreveu as profecias meio século atrás, outra grande pé-frio que, pelo menos, tem a decência de morrer antes que todo mundo — mas que como praga se reproduz exponencialmente, deixa uma filha que também ouve vozes.

Nesse meio tempo Nicholas Cage faz o que faz melhor: aproveita cada chance disponível para ficar parado com as pernas abertas e com cara de sofredor meio atarantado.

Finalmente ele descobre que a última profecia se refere ao fim do mundo: uma explosão solar vai destruir o planeta e não há nada que se possa fazer para evitar isso. Então o mistério dos sujeitos com caras de fantasmas é revelado: eles são ETs que acompanham os escolhidos para serem salvos do fim do mundo. O filho de Cage e a filha da maluca são levados em uma nave espacial com seres de luz que parecem anjos para outro planeta, onde poderão recomeçar a humanidade. Levam consigo dois coelhinhos, símbolos pascais de fertilidade e indicativos do que aqueles dois meninos farão a partir dali. (Só por isso os autores do filme deveriam ser processados por pornografia infantil.)

Depois de entregar o filho aos ETs com jeito de anjos high-tech, Nicholas Cage vai para a casa dos pais, com quem não falava há anos, e enquanto grandes labaredas engolem Nova York eles se abraçam e morrem felizes e conformados, na melhor metáfora do churrasquinho familiar do fim de semana que o cinema já produziu.

A última cena, bastante onírica, mostra os dois meninos correndo em direção a uma grande árvore, a Árvore da Vida ou do Conhecimento, como preferir. Os coelhinhos já devem ter ficado cruzando em algum lugar, que coelho você sabe como é, né? Só não se sabe onde está o diabo da Serpente.

E aí o filme acaba e você vai correndo para a bilheteria, bater na moça que lhe vendeu o ingresso e exigir que aquela cachorra lhe devolva o dinheiro que você gastou.

Isso é tudo. Se você ficou com raiva por eu ter contado o final do filme, não fique. Eu prestei um serviço de utilidade pública, e um grande favor a você. Conhecendo o final, você pode se poupar o desprazer de assistir a uma imbecilidade confusa como essa. Em vez de gastar seu dinheiro nesse filme, vá às Lojas Americanas e compre um DVD qualquer de 12,99. Porque depois de ver tamanho amontoado de bobagens, a única lição que fica você provavelmente já sabia: use protetor solar.

Sobre livros

Há algumas coleções de livros que deveriam ser reeditadas imediatamente. Simples assim.

Uma delas é a “Brasiliana”, da Companhia Editora Nacional, hoje controlada pelo IBEP. A Nacional foi fundada por Monteiro Lobato. Foi provavelmente a editora mais importante do século XX, noves fora, pela sua importância no cenário literário nacional. Tem muita coisa boa ainda em seu catálogo, mas é apenas uma sombra pálida do portento que foi um dia.

Na sua “Brasiliana” foram publicadas, pela primeira vez, algumas das mais importantes obras do pensamento brasileiro. “Sobrados e Mucambos” de Gilberto Freyre, por exemplo, ou ainda “Brancos e Pretos na Bahia”, de Donald Pierson, que um sebo de Salvador vende por 180 reais (na Estante Virtual achei por 40, e esse vai ser um favor que deverei para sempre ao Bia).

Essa coleção é um dos maiores repositórios do pensamento brasileiro no século XX, e não pode ser esquecida.

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A coleção “Clássicos da Literatura Juvenil” foi publicada pela Editora Abril no início da década de 1970, e já foi mencionada neste blog umas duas vezes — uma delas em comparação com a Coleção Vagalume.

A coleção é do tempo em que a Abril, que hoje tenta fazer pouco de qualquer revista ou jornal que lance fascículos, se consolidava justamente com eles — como as coleções de clássicos, bíblias ou enciclopédias como a Conhecer. A “Clássicos da Literatura Juvenil” é encontrada com relativa facilidade em sebos, por preços de vão de 1 a 7 reais, cada. Vale a pena, e é provavelmente a coleção que eu recomendaria a qualquer pessoa, em qualquer tempo.

A coleção é brilhante, perfeita para quem está começando a ler. Não apenas pelos excelentes títulos. Mas porque, com sua capa dura, ilustrações e bom trabalho de edição, ensina as crianças a gostarem do objeto livro. Talvez isso seja meio antiquado numa época em que se tenta vender o conceito de e-book readers, mas à medida que o tempo passa tenho mais e mais certeza de que ainda não inventaram nada melhor que ler um bom livro, numa edição bem cuidada, deitado em um sofá, uma cama ou uma rede, com a perna apoiada sobre uma bunda redonda e quente, enquanto a brisa da praia passa devagarinho por você.

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Outra coleção que deveria ser posta na rua novamente não é propriamente uma reedição.

A editora mineira Itatiaia tem uma das melhores coleções sobre história do Brasil, a “Reconquista do Brasil“. São textos fundamentais da história brasileira. Rugendas, Mawe, Burton, Saint-Hillaire, Ewbank: esses livros são peças fundamentais para quem quer entender a evolução histórica do Brasil. Porque são as fontes originais, utilizadas por praticamente todos os historiadores decentes do país. É comum as pessoas, por exemplo, se posicionarem contra ou a favor de Gilberto Freyre — mas a maior parte dessas pessoas nunca chegou perto do material que ele utilizou para chegar às suas conclusões. Esses livros são o antídoto definitivo contra a epigonia.

Estão todos ali, mas esses livros são vendidos por preços altíssimos, bem acima da média. E os preços altos condicionam também os preços dos mesmos livros nos sebos. Não há justificativa real para isso: a maior parte dos textos originais, inclusive, já entrou em domínio público há tempos. Só são caros assim porque são raros. E só são raros porque, mesmo sendo fundamentais para a formação do pensamento nacional, não encontram competição. Não são livros que vendam muito, não sustentariam a livre concorrência,

Universidades brasileiras, em vez de gastarem tempo e dinheiro financiando pesquisas e teses ruins ou incoerentes, bem que poderiam gastar um pouco de esforço e dinheiro para traduzir e transcrever esses livros, colocando-os em domínio público sob uma licença Creative Commons. Se esquecessem um pouco seus interesses corporativos, estariam prestando um favor maior à cultura nacional do que incentivando seus alunos a publicarem monografias bobas e mal escritas.

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A edição brasileira da “Comédia Humana”, de Balzac, era uma das melhores do mundo.

O responsável por ela foi o Paulo Rónai, que publicou uma edição quase perfeita: excelentes traduções, em português acima da média, com introduções críticas e uma abundância de notas de rodapé explicando o contexto histórico do livro e também as relações com outros livros da “Comédia”. A Editora Globo reeditou esses livros entre o fim dos anos 80 e começo dos 90, mas essa edição está fora de catálogo já há muito tempo.

Eu ainda não faço idéia da razão pela qual a “Comédia Humana” está fora de catálogo. É impressionante que um dos maiores autores da história da literatura mundial esteja relegado à reimpressão de alguns dos seus piores livros, como “A Mulher de Trinta Anos”.

Balzac faz falta.

Sobre o Oscar 2009

Depois de anos assisti a uma cerimônia do Oscar. Eu estou ficando velho ou ele está mesmo menos brega? Eu não sei. Mas me pareceu uma cerimônia mais agradável, mais rápida, e mais elegante do que aquelas a que eu estava acostumado.

Foi engraçado ver Anthony Hopkins cochilando. Ou ver que a Sophia Loren está a cara da Elza Soares, tão esticada que seu umbigo já deve estar se aproximado do pescoço.

Talvez a melhor surpresa da noite — para mim, pelo menos, que não vinha acompanhando absolutamente nada sobre o assunto — tenha sido o prêmio honorário dado a Jerry Lewis. Lewis merece todo e qualquer prêmio que queiram lhe oferecer. Na verdade, este que lhe foi concedido hoje é pequeno diante de sua grandeza. Lewis é um dos grandes comediantes da história do cinema, e é um tanto triste vê-lo aos 82 anos, torto por causa dos seus problemas de coluna, e sabendo que tem um problema grave de pulmão, resultado dos anos fumando talvez até mais que eu. Ver os americanos, que sempre o acharam pouco mais que um careteiro, finalmente lhe dar um prêmio, por menor que seja, já é um pequeno consolo.

Por outro lado eu não sabia que Jules Dassin tinha morrido, e isso me deixou triste.

Não posso comentar a maior parte dos Oscars concedidos, porque não vi boa parte dos filmes e, principalmente, não vi Slumdog Millionaire, o grande campeão da noite. Mas posso dizer que houve alguns pequenos equívocos. Eu teria dado o Oscar de Edição de Som a “WALL-E”, pela delicadeza com que o som é tratado naquele filme, que não tem diálogos até quase a sua metade; The Dark Knight poderia ficar com o de Melhor Som.

Não tenho certeza de que Sean Penn merecia o Oscar por Milk; Frank Langella é um ator fantástico, apesar de subestimado, e poderia ter ganho, assim como Mickey Rourke. Mas Sean Penn é provavelmente o nome mais palatável entre todos eles — com exceção de Brad Pitt, que mesmo com toda a simpatia e verba de publicidade investida tem um desempenho tão ruim como Benjamin Button que simlesmente ter sido indicado é uma grande vitória do seu estúdio.

Cerimônia encerrada e, no fim das contas, é tão bom ver que nem todo mundo é idiota e “Benjamin Button”, aquela pequena celebração incompetente da mediocridade, ganhou apenas três Oscars menores — e dois eles questionáveis, porque The Dark Knight merecia o de Efeitos Visuais, e o de Maquiagem poderia ter ido para Hellboy II sem problemas.

10 anos atrás eu fiquei irritado ao ver um filme mediano como “Shakespeare Apaixonado” ganhar o Oscar de melhor filme, uma atriz medíocre como Gwyneth Paltrow derrotar uma atriz soberba como Fernanda Montenegro, um palhaço como Roberto Benigni ganhar o Oscar de melhor ator e uma baba puxa-saco como “A Vida é Bela” vencer “Central do Brasil”. Mas hoje, ao deixar “Benjamin Button” no lugar que lhe é de direito, o Oscar me deixou com uma sensação de justiça feita.

Uma leitura errada das coisas

O Leitor” é um ótimo filme. Dirigido por Stephen Daldry, diretor de “As Horas” e Billy Elliot, é uma daquelas poucas boas obras produzidas por Hollywood nos últimos anos — talvez por apresentar qualidades estéticas típicas do cinema europeu, talvez por partir de um roteiro enxuto baseado em um livro que se presta bem à adaptação cinematográfica.

Não há excessos na direção de “O Leitor”: não há longos travellings, cenas propositadamente melodramáticas. Stephen Daldry desempenha a sua função com concisão e economia admiráveis, sem que em nenhum momento isso possa ser confundido com pobreza estética. Kate Winslet, como Hannah Schmitz, a ex-guarda de campos de extermínio que tem um caso amoroso com um garoto 20 anos mais jovem, está esplendorosa. É uma atriz de coragem, essa Winslet. Sua personagem consegue passar a dureza e a pobreza espiritual de sua personagem sem maniqueísmos nem pieguice.

Mesmo assim, nos últimos dias o filme vem sendo alvo de uma pequena polêmica. Ron Rosembaum, em artigo na Slate, pediu que não se dê um Oscar a “O Leitor” e o classificou como o pior filme já feito sobre o Holocausto.

Rosembaum, aparentemente pronto a defender com unhas e dentes a propriedade inalienável da Solução Final, não consegue sequer entender que o filme não é sobre o Holocausto.

“O Leitor” é, antes de tudo, um romance de formação em tempos difíceis, uma espécie de Billy Bathgate sem o lirismo idílico de “Houve Uma Vez Um Verão”. Mas é também, e principalmente — e é isso que lhe confere grandeza –, um filme sobre o desconforto alemão em lidar com o próprio passado nazista.

Esse desconforto está explícito na dificuldade com que Michael Berg, interpretado na idade adulta pelo ótimo Ralph Fiennes, lida com a mulher que foi o seu primeiro amor, a partir do momento em que conhece o seu passado. Aquela relação o marcaria para sempre, e sobre ela pode-se ter várias leituras. Uma delas, no entanto, é a que realmente interessa: o garoto incauto e ingênuo como representação do povo alemão, seduzido por algo maior e incompreensível — Hannah como materialização do nazismo — e os dilemas que enfrenta diante da necessidade de, mais tarde, encarar esse passado.

No entanto, em nenhum momento o filme pretende desculpar os alemães pelo nazismo. Isso não tem desculpa, e a essa altura ninguém espera que tenha. Sob essa ótica, “Operação Valkyria” é um filme muito mais nocivo, ao retratar aristocratas alemães como combatentes valorosos do nazismo (sobre isso já escrevi aqui: minha posição é a de que a esses “super-homens” alemães falta o estofo necessário aos verdadeiros heróis). Mas é preciso entender como o nazismo se desenvolvia em seus muitos níveis. Ninguém é estúpido o suficiente para achar que o que motivava a colaboração de um camponês era o mesmo que motivava Albert Speer — que por sua vez não estava lá pelas mesmas razões de Goebbels.

Ao mostrar uma mulher que não abriu as portas de uma igreja em chamas porque era preferível que os prisioneiros sob sua guarda morressem em vez de ter uma chance de fuga, Daldry não está pedindo que simpatizemos com ela. Pelo contrário: em nenhum momento a personagem de Kate Winslet é mais desprezível e abjeta. Mas nós podemos compreender a lógica simplória do seu raciocínio. E com isso, Daldry apenas retrata a estupidez e a crueldade de uma parte do povo alemão em um momento atroz de sua história.

O equívoco desse pessoal que acusa o filme de leniência em relação ao nazismo é que eles não conseguem compreender que o problema aqui não reside em ela aceitar em levar a culpa isolada pelo crime. Está no fato de que ela participou daquele ato, fez uma escolha aterrorizante, ainda que coletiva, e isso não é desculpável. A decisão de Hannah em assumir a culpa pela morte daqueles prisioneiros para não revelar que é analfabeta é, provavelmente, o momento mais fraco do filme. Mas o analfabetismo de Hannah não entrou em questão quando ela cometeu o seu crime. É irrelevante.

Como a ficcional Hannah Schmitz, milhares de alemães colaboraram em atrocidades de guerra sem muitos questionamentos morais. Em certa medida, isso é parte do próprio caráter germânico; em outra, maior e mais importante, é representativa do anti-semitismo generalizado na sociedade alemã. Eu e milhares de outras pessoas conseguimos compreender isso. Rosembaum não consegue porque sua agenda limita sua capacidade de ver a realidade.

Um dos grandes méritos de “O Leitor” está no fato de abordar o fenômeno do nazismo, do ponto de vista da sociedade alemã, de maneira razoavelmente objetiva, com uma compreensão razoável do caráter germânico e reconhecendo determinadas nuances da sua concretização. Um filme como esse deve incomodar pessoas com a mentalidade que se vê em Rosembaum porque admite a complexidade humana e tenta fugir de raciocínios simplistas.

O mais curioso é que essa linha de pensamento acaba fomentando o obscurantismo, ao evitar a discussão de complexidades daquele momento histórico. Eles não entendem que não basta admitir a maldade intrínseca e a excepcionalidade do fenômeno nazista. É preciso também admitir que o nazismo foi maior que o Holocausto, e tentar compreender os mecanismos que levaram àquela atrocidade. Olhar o nazismo como um fenômeno extemporâneo e isolado é um equívoco.

O Oscar pode ser negado a Kate Winslet e a “O Leitor”, claro. Mas que seja pelos seus defeitos como atriz e filme ou pelo interesse da indústria cinematográfica americana, e não porque alguns bobos acreditam que o filme não é panfletário o suficiente.

Salman Rushdie, 20 anos depois

Tenho a impressão de que esse pessoal mais novo não sabe de verdade quem era o Aiatolá Khomeini.

Na minha época Khomeini estava nos jornais praticamente todos os dias. Era o equivalente ao Osama bin Laden de hoje. Foi o sujeito que derrubou Reza Pahlevi, que humilhou os Estados Unidos na crise diplomática com os reféns na embaixada americana em Teerã (e indiretamente ajudou a eleger Ronald Reagan presidente). Khomeini era o cão chupando manga. Sua imagem era a de um contraponto sombrio e quase diabólico a outro velho: de um lado, o simpático vovô atleta João Paulo II, trazendo um sopro de renovação à imagem da Igreja Católica; do outro, o Khomeini malvado de turbante, pregando a revolução islâmica e levando o Irã, antes tão ocidentalizado, a uma nova era de trevas. Pelo menos era essa a imagem que tínhamos dele.

Mas o mais importante, mesmo, é que ele era o homem que declarou uma fatwa contra Salman Rushdie.

Foi há 20 anos, completados no último sábado. Rushdie tinha acabado de lançar um livro polêmico, The Satanic Verses — que imediatamente ficou conhecido aqui, graças a uma imprensa pouco afeita a pequenos detalhes da língua do bardo, como “Os Versos Satânicos”. O aiatolá Khomeini achou o livro ofensivo à figura de Maomé e decretou uma sentença de morte sobre Rushdie. Essa foi a grande notícia internacional do início de 1989. Não houvesse a queda do muro de Berlim e a implosão dos regimes socialistas no Leste Europeu, no fim daquele ano, e talvez ela tivesse sido a grande notícia de 1989.

(Essa foi a grande sacanagem de Khomeini: lançar a fatwa e morrer logo depois. Fatwas só são revogáveis por quem a decretou. Embora já há mais de 10 anos o governo do Irã venha desencorajando o cumprimento da sentença, em tese Rushdie continua condenado à morte. Felizmente o tempo passa e juras enfraquecem; hoje, e já há algum tempo, o próprio Rushdie vive uma vida bem razoável, embora eu tenha a impressão de que ele ainda acorda com medo à noite.)

Aqueles eram os tempos de antes da Amazon e, no Brasil, nenhuma editora quis lançar o livro. Talvez por dificuldades na negociação dos direitos autorais; talvez por uma bem justificada cautela. A primeira edição brasileira só seria lançada, pela Companhia das Letras e com o título que já tinha sido consagrado pelo uso popular, aí pela metade dos anos 90, quando a comoção já tinha passado e ninguém mais levava a sério a fatwa de Khomeini — ou, melhor dizendo, ninguém mais achava que corria o risco de ir pelos ares pelo crime de editar um livro.

Mas uma editora portuguesa teve a coragem de lançar o livro no meio de todo esse furacão: a Publicações Dom Quixote lançou o livro no final de 1989, inclusive com uma sobrecapa igual à original inglesa. Sabe-se lá por que vias, essa edição chegou ao Brasil. Comprei a minha no final de 1990. Foi quando passei a ver o livro e Rushdie com outros olhos.

O principal problema do livro estava explícito já nas primeiras páginas: ele era realmente ofensivo. Deliberadamente ofensivo. Basicamente transformava um personagem que era indiscutivelmente inspirado em Maomé em um demônio, com pés de bode e tudo. Era ainda mais ofensivo quando lembramos que a edição portuguesa traduzia corretamente o título do livro: “Os Versículos Satânicos”.

Viver costuma ensinar algumas poucas lições realmente importantes. Uma delas é a de respeitar os valores do próximo, ao menos quando ele está próximo, e nunca cutucar onças com varas curtas. Rushdie sabia o que estava fazendo ao escrever aquele livro narrando a queda de Maomé. Não é como se um sujeito do interior da Paraíba xingasse o marido de Kadidja. Aquela era a sua cultura, ele sabia exatamente do que falava, e sabia ao que estava exposto.

É facil falar em liberdade de expressão e em valores ocidentais, quando se está no Ocidente. Essas garantias são tão inquestionáveis para nós que acabamos pensando que são universais. Eu posso xingar Jesus e o máximo que vou receber em troca serão reclamações e ofensas — no máximo uma excomunhão, que hoje em dia não vale absolutamente nada e poderia até ser ostentada como prêmio por alguns. Mas “Os Versículos Satânicos” não está inserido nesse contexto isolado, e por isso ofender deliberadamente um povo que é, digamos, bastante suscetível a palavras ditas por ocidentais é não ter aprendido a lição da vara curta. Talvez não seja exagero achar que o Alex concordaria comigo: quem sabe da ofensa é o ofendido.

Não é que Rushdie merecesse a fatwa, ou que nós, ocidentais, não tivéssemos o dever de defendê-lo. Mas ele sabia com o que estava brincando, e isso deve ser sempre levado em consideração.

Toda a polêmica, toda a indignação, no entanto, deixaram de lado um detalhe importante: ninguém dizia se o livro era bom ou ruim. Até porque a qualidade do livro não parecia importar àquela altura. E é por isso que eu devo muito a “Os Versículos Satânicos” e a Salman Rushdie.

O livro era ruim.

Até uma bela noite do início de 1991, eu tinha um comportamento um tanto calvinista calvinista em relação à leitura. Se tinha comprado um livro, eu deveria chegar até o final, não importava se fosse bom ou ruim. Nem sempre eu conseguia, claro; mas quando era forçado a abandonar um livro, eu o fazia com uma sensação de culpa e de fracasso.

“Os Versículos Satânicos” foi o primeiro livro que joguei de lado com convicção e com a alma leve. Foi com esforço que superei as primeiras 100 páginas; mas o esforço, depois que desisti do livro, valeu a pena. Aquela seria a primeira vez em que eu disse para mim mesmo “Eu não vou ler esta merda”, e não me senti mal por isso — pelo contrário, me senti aliviado, livre de um peso que, a cada página, se tornava cada vez maior.

De vez em quando penso em retomar “Os Versículos Satânicos”. Ele coleciona tantos elogios por aí que de vez em quando me pego admitindo a possibilidade de que eu é que não consegui ver as qualidades do livro, ou que a tradução portuguesa me causou alguma estranheza. Mais de 18 anos depois, talvez eu conseguisse ver o que tanta gente parece ver no livro: as qualidades de um grande escritor. Mas quando penso nisso, é por pouco tempo: porque o que devo a Rushdie é muito maior que isso: é o desenvolvimento de uma capacidade que até então eu não tinha. E isso vale mais que um livro provocador e mal intencionado.

Novamente o cinema brasileiro

A lista de 10 melhores filmes de Moniz Vianna publicada pelo André Setaro, crítico baiano de cinema, me fez perceber uma coisa: Moniz Vianna, assim como eu e o Bia, também não via lá grandes coisas em “Limite”, de Mário Peixoto Humberto Mauro.

Aproveitei para passar os olhos nos comentários ao post dos 25 melhores filmes por mim e pelo Bia, e uma coisa me impressionou, acima de todas as outras: a seriedade e a bile com que um bocado de gente comentou sobre o cinema brasileiro. Para muitos, o fato de eu ou o Bia não gostarmos de um ou outro filme é considerado uma ofensa grave que merece uma resposta malcriada à altura. Se eu tivesse xingado suas genitoras, aquelas senhoras de libada reputação, provavelmente não teria recebido respostas tão irritadas.

Mas vamos ser francos: o cinema brasileiro é inferior a outras cinematografias, como a americana. Sempre foi. 90% dos filmes incluídos nas listas de filmes brasileiros jamais conseguiriam entrar numa lista universal, que abrangesse cinematografias mais maduras como a americana, a italiana e a francesa. A gente já olha para os filmes brasileiros com um pedido de desculpas e uma mãozinha condescendente na cabeça.

No início do século, quando o cinema iraniano entrou na moda, eu ficava impressionado como as pessoas tomavam o “choque” causado pelo contato com uma cultura diferente por sinônimo de qualidade cinematográfica. O cinema iraniano então adquiriu um status maior que o merecido. Não que fosse ruim; mas os critérios que baseavam esse entusiasmo eram basicamente sociológicos, não cinematográficos.

De certa forma, acontece o mesmo com o cinema brasileiro. O critério que normalmente se usa para julgá-lo é subjetivo e condescendente. Um olhar que se esforce para ser objetivo vai ver um bocado de falhas em absolutamente todos os filmes brasileiros. “O Cangaceiro”, por exemplo, tem diálogos que parecem tirados de um poeta barroco ruim. “Cidade de Deus” tem uma narração em off que beira o amadorismo. A lista pode seguir ad infinitum.

Eu sempre achei que país pobre tem a tendência a estabelecer uma espécie de estética da pobreza. É praticamente uma questão de sobrevivência, e absolutamente louvável. Mas assim que o país sai do barraco e se muda para um dois quartos na Barata Ribeiro esquece isso; basta ver a evolução estética de um Visconti, por exemplo. Isso, no entanto, aconteceu conosco em aparentemente muito menor medida. E continuamos a sobrevalorizar em excesso aspectos que são importantes, mas que não são únicos e que, do ponto de vista da produção em si, não são sequer essenciais.

Sob esse aspecto, a ideologia cinemanovista de “uma idéia na cabeça e uma câmera na mão” — que não define o Cinema Novo, claro, mas que acabou se tornando a égide sob a qual o movimento se desenvolveu — foi uma das coisas mais deletérias que poderiam ter acontecido ao cinema brasileiro. A idéia de que cinema tecnicamente bem feito era uma coisa burguesa e dispensável era, desde o início, perniciosa. “Terra em Transe” é o melhor filme brasileiro, como acham alguns? Pode até ser. Mas que ninguém venha me dizer que o filme não se beneficiaria de uma produção mais esmerada. Locações. Cenários. Figurinos. Sonoplastia. Nada disso é supérfluo. Uma coisa é fazer Dogville em um cenário inexistente para defender um conceito; outra é enfiar um país inteiro, ainda que metaforicamente, em uma casa porque não se tem dinheiro para recriá-lo.

Também seria importante lembrar a decadência técnica do cinema brasileiro a partir dos anos 60. O Cinema Novo foi conseqüência e, de certa forma e em menor grau, causa dessa decadência. Mas cinema não é literatura e não é teatro. Precisa, sim, de certas condições de produção. O Cinema Novo e outros subverteram esse preceito por necessidade, porque ignorá-lo era a única maneira de se fazer cinema nas condições impostas. Mas ao teorizar sobre isso, numa tentativa talvez necessária de legitimação, criou uma certa escola de pensamento que é, definitivamente, um passo atrás. O cinema tradicional americano sempre deu o valor devido a esses critérios de produção (e em temos de indigência criativa tenta transformá-lo no único valor válido, uma espécie de inversão dos valores do Cinema Novo e igualmente nociva), e a indústria que criou, apesar dos bichos-grilos que ficam procurando um filme obscuro da Chechênia para aclamar como a nova obra-prima da sétima arte, continua fazendo na média o melhor cinema do planeta.

***

E tem os comentários sobre a lista propriamente ditos.

Acima de tudo, eu e o Bia tentamos ficar o mais longe possível daquelas “listas cabeça” que sempre foram o mainstream do cinema brasileiro. A razão é simples: essa mentalidade, conjugada à ação da Embrafilme, arruinou o nosso cinema. Tornaram-no coisa de certa elite cultural dirigida a si mesma, utilizando seus próprios códigos e conceitos, e cinema não pode existir dessa forma; acima de tudo, precisa ser popular. Porque é indústria e precisa de dinheiro para ser feito, e esse dinheiro só aparece se houver público. Os fãs do Cinema Novo que me perdoem, mas “Central do Brasil”, “Cidade de Deus” e “Tropa de Elite” fizeram mais pela indústria cinematográfica brasileira do que dois Glaubers, sete Sganzerlas e quatro Reichenbachs juntos.

Muita gente lembrou de bons filmes que não entraram na lista, por uma ou outra razão. “Eles Não Usam Black-Tie”, “O Homem da Capa Preta”, os filmes do Person, etc. Tem o Andrea Tonacci de quem tanta gente lembra e sobre quem confesso a minha total ignorância. Uma lista não pode contemplar todos os filmes, claro, e tenta buscar uma média aceitável. Elas são feitas para isso mesmo, para excluir.

Mas entre os bons filmes brasileiros não estão incluídos, por exemplo, “Carlota Joaquina”. Me desculpem, mas “Carlota Joaquina” é um filme horrível, muito inferior ao seu roteiro — que já não é exatamente genial. Seu valor é meramente histórico; e ainda assim pode-se argumentar que vale menos que o chatíssimo “O Quatrilho”, que ao concorrer ao Oscar representou para o cinema brasileiro o que a Copa de 1938 foi para o nosso futebol.

“Auto da Compadecida” não é um grande filme. É acima de tudo uma grande peça de teatro, que deu origem a uma grande minissérie de TV. O filme é pouco mais que uma versão resumida, sem toda a força do que foi ao ar na TV. Já “Olga” é apenas TV filmada, nada mais que isso — o que vale para praticamente todos os filmes feitos por diretores egressos da TV. Cinema e televisão têm linguagens diferentes, e aquela não era uma lista de ficção para TV — se fosse, eu incluiria “Hoje é Dia de Maria”, mais inventiva que esses dois exemplos aí.

E tem também o pessoal que sentiu falta da pornochanchada.

Pessoalmente, tenho um grande apego à pornochanchada. É um apego quase tão grande quanto o do Ina. A pornochanchada é, para mim, o melhor retrato dos anos 70. Eu consigo me enxergar nesses filmes — é o único momento em que consigo ver imagens em movimento de uma época que, afinal de contas, eu vivi. Em “Essa Gostosa Brincadeira a Dois”, por exemplo, eu não apenas revejo uma Bahia e um tempo que não existem mais; eu sei também a quem pertencia um dos carros usados ali.

Além disso, a pornochanchada atingia o que deveria ser o objetivo básico de qualquer filme: ser visto. A dicotomia que se criou na época entre “cinema de qualidade” e “cinema comercial” foi ruim e desnecessária. Mas acima de tudo acho que a pornochanchada é a melhor herdeira do espírito das chanchadas, que foram tão esculhambadas em seu tempo e posteriormente adquiriram status de quase arte — o enfoque em um aspecto fundamental da alma brasileira, a brejeirice, a cordialidade mal-entendida de Sérgio Buarque de Holanda. Sob esse ponto de vista, é um cinema mais brasileiro do que muita coisa que se fez por aí — “O Quatrilho”, por exemplo, poderia ser ambientado em absolutamente qualquer lugar do mundo sem nenhum prejuízo de sua estrutura narrativa.

Mas infelizmente não há uma única pornochanchada que possa ser considerada bom cinema, se formos avaliar todos os critérios necessários. Talvez alguns deles, se refilmados hoje, dessem filmes razoáveis. Mas dificilmente resultariam em obras primas.

O Jurandir lembrou de “Oh! Rebuceteio”. É uma grande lembrança. Eu já tinha escrito sobre o filme, mas acima de tudo, não o considero um filme pornô. No máximo, é uma “meta-pornochanchada”, se esse termo existe. Eu gosto. Mas eu, como o Bia, gosto de umas coisinhas bem esquisitas. E nem por isso tento convencer as pessoas de que elas são grande sobras de arte.

Benjamin Button, Despereaux e o estranho estado das coisas cinematográficas

Há algo de estranho na crítica cinematográfica, e essa estranheza pode ser percebida quando alguém se debruça sobre a recepção dada a dois filmes diferentes que ainda estão em cartaz, “O Estranho Caso de Benjamin Buttom” e “O Corajoso Ratinho Despereaux”.

“O Estranho Caso de Benjamin Button” é um filme medíocre e sem imaginação. É “Grandes Esperanças” estrelada por Forrest Gump. Não Tom Hanks; Forrest Gump, mesmo, o personagem idiota.

Inspirado em um conto mediano de Fitzgerald com cerca de 20 páginas, o filme dirigido por David Fincher (bom diretor de alguns excelentes filmes, como Se7en e “Clube da Luta”) só traz do original a idéia de um homem que nasce velho e morre criança, e mais nada. O resto é uma coletânea frouxamente amarrada da experiência de 100 anos de clichês cinematográficos em filmes para pessoas que choram fácil no cinema. Mesmo isso talvez já seja demais: em nenhum momento há um mínimo de possibilidade de identificação com a situação do personagem vivido inexpressivamente por Brad Pitt; nem sequer um olhar surpreso pelas situações que a a inversão da ordem das coisas pode causar.

O conto original não é um dos melhores de Fitzgerald. Na introdução a ele em The Short Stories of F. Scott Fitzgerald, Albert Bruccoli lembra que Fitzgerald encontrou dificuldades para vendê-lo. Inspirado por Mark Twain, Fitzgerald não conseguiu ir além do óbvio, e o conto acaba sendo simplista em excesso. Mas ainda assim é uma obra superior ao filme que inspirou — e, o que é melhor, bem mais curta. Enquanto Fitzgerald usava a parábola do “homem ao contrário” para fazer algumas observações sobre a sociedade americana e suas expectativas acerca de seus membros, e não atingia seu intento, Fincher consegue fracassar de maneira muito mais retumbante, e gasta quase três horas falando sobre nada. Não se aprofunda nas perguntas sobre a sociedade que o tema levanta; mas tampouco consegue mostrar quem é Benjamim Button, intepretado de maneira particularmente ruim por Brad Pitt. Benjamin Button passa pela vida como Forrest Gump, com a diferença de não ter alterações no QI ou comportamento aos 70 ou aos 15 anos. Fincher não tem imaginação, e não parece ter percebido as possibilidades que tinha em sua mão. O resultado é um filme vazio cujos melhores momentos são propiciados por um velho que conta, ao longo do filme, que foi atingido sete vezes por raios — provavelmente porque essas cenas têm tão pouco a ver com o filme que nos oferece um merecido alívio daquela modorra sub-dickensiana que são os encontros e desencontros de Brad Pitt e Cate Blanchett.

“Benjamin Button” é um filme ruim, falso, em que não shá verdade. Poderia ter sido uma boa comédia besteirol, dessas dirigidas pelos irmãos Farrelly; e Fitzgerald percebeu esse potencial, dando-lhe um tom de farsa que está ausente no filme. Fincher não percebeu que o único caminho para o absurdo seria a comédia, ainda que narrada seriamente, e realizou uma bomba de um sentimentalismo manufaturado e artificial.

Mas mesmo sendo um filme tão ruim, “Benjamin Button” vem colecionando críticas elogiosas por onde quer que passe. Um bocado de indicações ao Oscar, que é no mínimo um bom termômetro da indústria cinematográfica americana. Elogios de muita gente.

Então tá.

Do outro lado, há “O Corajoso Ratinho Despereaux”, desenho animado da Universal que está sendo exibido sob uma acolhida morna da crítica. Morna porque ela está mais preocupada em louvar as qualidades de outros dois desenhos deste último ano: “WALL-E“, da Pixar, e “Bolt”, da Disney.

“WALL-E” foi aclamado ano passado como uma obra-prima. É um excelente desenho, é verdade; mas jamais uma obra-prima. É apenas mais um, como os tantos que saem a cada temporada de férias. A Pixar, assim como sua co-irmã Apple de Steve Jobs, parece trabalhar sob um signo de infalibilidade presumida. Não há um novo lançamento seu, por medíocre que seja, que não seja objeto de elogios hiperbólicos da crítica. No entanto, se formos olhar para os desenhos que fizeram realmente diferença nesta década, veremos que não saíram de seus computadores, como “Shrek” — com a exceção provável de “Os Incríveis”, que na época chamei de “o melhor desenho infantil feito para adultos da história”.

Já “Bolt” só pode ser elogiado a partir da admissão de que a máquina de publicidade da Disney ainda funciona. Não é tão ruim quanto um “Bee Movie” ou um “Encantada”, mas está longe de ser realmente brilhante. É apenas mais um desenho animado que absorve alguns dos novos clichês do gênero — e aí, sim, pode-se dar à Pixar o seu merecido crédito por definir o novo padrão: “Bolt” deve muito a “Os Incríveis”. No entanto a crítica já viu nele o “renascimento da Disney”. Viu demais. Bolt se enquadra na mesma categoria de “Irmão Urso” ou “Nem que a Vaca Tussa”: filmes com um bom padrão de qualidade mas que acrescentam pouco ou nada.

Enquanto isso relegam “O Corajoso Ratinho Despereaux” a a um papel menor e injusto. É um crime. “Despereaux” é o primeiro desenho animado em quase 15 anos a conseguir resgatar a magia que um dia foi o playground dos desenhos animados da Disney. Há uma veracidade de conto de fadas, uma pureza narrativa, um respeito a valores universais que esão ausentes de virtualmente todos os desenhos dos últimos tempos. “Despereaux” tem elementos plásticos eventualmente brilhantes, como o estilo medieval de desenho utilizado em vários personagens, mesclados de maneira sutil com traços que remetem aos bons tempos dos Estúdios Walt Disney.

Walt Disney, o homem que criou todo um gênero — o longa metragem infantil de animação –, teria orgulho de um filme como “Despereaux”.

As reações distintas a “Benjamin Button” e a “Despereaux” mostram o estado pífio a que a nossa crítica chegou. Hoje parece pouco mais que a compilação dos releases dos estúdios. Não deve ser à toa que, na semana passada, morreu o último grande crítico brasileiro de cinema. Moniz Vianna morreu porque deve ter percebido que, dentro do estado caótico da crítica de cinema, já não fazia mais sentido.

Beatlegs

Decca Tapes, o pirata primordialA minha primeira bíblia sobre os Beatles foi a revista Beatles Documento (ou Documento Beatles), uma edição especial da revista Somtrês escrita pelo Marco Antonio Mallagoli, do fã clube Revolution. Era 1985, uma época em que informação era difícil de achar. Minha primeira cópia se desfez de tanto uso, e comprei outra. Depois eu veria que tem muita informação errada ali. Muita, mesmo, além de opiniões bastante descartáveis. Mas independente disso, foi a revista responsável por eu querer entender um pouco mais sobre a banda. A Beatles Documento foi inestimável.

Ela foi também minha introdução na pirataria. Uma seção da revista fazia uma boa lista de discos piratas. De repente, eu ficava sabendo que além das músicas que eu já sabia que existiam — eu ainda não tinha ouvido todas — havia também uma infinidade de outras que não estavam facilmente disponíveis. Foi lá que fiquei sabendo do The Decca Tapes, o primeiro álbum pirata que comprei na minha vida, ainda naquele ano, e de tantos outros. As imagens que acompanham este post são de discos mencionados naquela revista.

Pirataria dos Beatles é coisa de fã, mesmo. A maior parte é simplesmente ruim. Não é algo que interesse realmente a ninguém, porque são geralmente canções descartadas ou incompletas. Mas mesmo levando isso em consideração, pirataria já foi mais interessante. Até há 15 anos, uma boa porção de material inédito bastante interessante era encontrado apenas em discos piratas. A Apple contornou esse problema lançando o Live at the BBC em 1994, e nos anos seguintes a série Anthology, com um montão de sobras de estúdio e algumas gravações ao vivo. Com isso, eliminaram boa parte dos atrativos desses discos. Pirataria é para completistas que se dão ao trabalho de tentar escutar tudo que a banda fez. Ou seja: para bobos.

O conselho que dou para qualquer pessoa que queira escutar isso é: não perca seu tempo. O que fez dos Beatles uma grande banda não foi o material que descartaram por considerarem ruim; é o que está nos discos lançados entre 1962 e 1970. Mas o mundo também tem lugar para malucos como eu. Então aqui vai uma breve introdução para aqueles que querem conhecer um pouco mais sobre pirataria.

Durante muito tempo, esses discos foram lançados por “selos” tão verdadeiros quanto uma nota de 3 reais. Alguns, como a Yellow Dog, Audifön, Vigotone e Great Dane se notabilizaram pela alta qualidade dos seus lançamentos. Mas até há alguns anos era extremamente difícil achar discos piratas — e quando se achava, eles eram caríssimos. A coisa melhorou muito com o surgimento do CD. Mas a grande virada, mesmo, foi a consolidação da internet como canal de distribuição. Foi quando surgiu a Purple Chick.

A Purple Chick é, provavelmente, um grupo de fãs (ou um louco só) que está realizando compilações quase perfeitas e abrangentes de todo esse material disponível e distribuindo-as gratuitamente na internet. Hoje, Purple Chick é, se me permite o paradoxo, garantia de qualidade em gravações de má qualidade.

Basicamente, os discos piratas dos Beatles vêm de seis fontes distintas: gravações caseiras, gravações de programas de rádio na BBC, shows ao vivo, outtakes das sessões de estúdio, e as sessões de gravações do Get Back/Let it Be, como o show no telhado da Apple, que na última sexta completou 40 anos.

Decca Tapes
É o meu preferido, e o único que tenho em vinil. É a gravação da audição dos Beatles na Decca, aquela que fez o diretor da gravadora, Dick Rowe, dispensá-los e dizer que “bandas de guitarra estão fora de moda”, para seu eterno arrependimento. É um bom disco. As gravações são encontradas em vários outros, hoje em dia, mas esse é o original. É um clássico absoluto.

Demos
Demos é como são chamadas as gravações caseiras feitas para não esquecer uma música que acabaram de compor ou para mostrar aos outros membros da banda. Antigamente elas estavam espalhadas por vários discos diferentes, em coletâneas como a série Artifacts, mas hoje há uma série chamada The Complete Home Recordings, que abrange desde as primeiras gravações, ainda com Stuart Sutcliffe, até o final. A maior parte é chata de doer, mas aqui e ali uma ou outra canção se sobressai. Serve também para entender que, na época do “Álbum Branco”, as canções já eram apresentadas ao resto da banda praticamente em sua forma final.

BBC
Foi uma das grandes fontes de pirataria dos Beatles durante muito tempo. Nos seus shows na BBC, eles tocavam músicas inéditas — são dezenas delas –, brincavam, etc. Durante muito tempo a melhor compilação desses shows foi o The Complete BBC Sessions; hoje, se alguém quer a mais completa, deve procurar pela edição com mesmo nome da Purple Chick. Está tudo ali. É a melhor de todas. Mas o fato é que mesmo para fãs o disco oficial Live at the BBC é mais que suficiente. Com algumas poucas exceções, praticamente tudo o que os Beatles gravaram de interessante na BBC está lá. O resto é redundante.

Shows
Os dois únicos discos ao vivo oficiais dos Beatles foram lançados 7 anos depois do fim da banda. O Live at Hollywood Bowl, uma mixagem de pedaços dos shows de 1964 e 1965, ainda não foi lançado em CD, e o The Beatles Live! At Star Club, Hamburg 1962 sempre enfrentou problemas legais, já que nunca foi autorizado pela banda. (Em 1998 eles finalmente venceram um processo judicial para tirá-lo de catálogo, e hoje é um disco pirata. Mas é brilhante. Serve, quando menos, para mostrar que os Beatles eram uma grande banda de rock and roll e que eram extremamente empolgantes ao vivo, antes da rotina dos shows da beatlemania.) A maioria dos discos de shows têm qualidade de som muito ruim, servindo principalmente como registro histórico. Mas há exceções. O Shea Stadium é o maior show da história dos Beatles (embora tenha sido “aperfeiçoado” em estúdio algumas semanas depois), e o primeiro mega-show da história. No Live in Atlanta, 1965, você pode ouvir Lennon esnobando a sua audiência, que obviamente não podia ouvir nada por causa dos seus próprios gritos. O Five Nights at a Judo Arena, dos shows japoneses da última turnê dos Beatles, tem som excelente mas mostra uma banda que já não faz o mínimo esforço em tocar sequer afinada. E finalmente há o Candlestick Park, o último show ao vivo dos Beatles, em São Francisco (e melhor que os outros shows dessa turnê).

Out-takes
Ah, qualquer um. Tem um monte por aí. A maior parte é deprimente — mixagens da sala de controle, essas coisas. Com raras exceções, são todas inferiores ao que foi liberado. Não valem a pena. Há uma série chamada “The Alternate…” (The Alternate Help, The Alternate Rubber Soul, etc.) que faz um bom resumo do que foram as sessões de gravação de cada um desses discos, e se você quer se aventurar por esse pântano, são os mais recomendáveis. Costumam ser os discos com melhor qualidade de som — afinal, foram tirados diretamente do estúdio. E sempre se pode achar uma ou outra coisa realmente interessante nelas, uma versão esquisita de alguma canção, coisas desse tipo.

Let it Be
Essa é a outra grande fonte da pirataria. Afinal, foram mais de 90 horas de gravações. Há coisas inacreditáveis ali. Acho que chegam a centenas de canções diferentes. A série Thirty Days é clássica, e foi durante muito tempo a mais completa. Mas recentemente a Purple Chick lançou a série A-B Road, baseada nas fitas do filme — um “álbum” para para cada dia, com mais de 90 faixas em cada. Nos dois casos, a verdade é que qualquer ouvinte ficaria perdido entre tantas gravações dispensáveis, redundantes ou ruins. Diálogos, afinação, falsos começos, gravações sem absolutamente nenhum interesse — é uma infinidade de bobagens que não interessa a ninguém, além de colecionadores hardcore. É por isso que eu recomendaria os 3 discos de The River Rhine Tapes. Uma excelente seleção do que saiu de melhor daquelas sessões — John cantando Get Back, Maxwell’s Silver Hammer, Something e I’ve Got a Feeling, por exemplo, as melhores versões de Two of Us, e muito mais — com qualidade de som muito boa. É definitivamente melhor que o Anthology III.

Um adeus a John Updike

E o John Updike morreu.

Os jornais americanos estão repletos de elogios ao finado. “O escritor do sexo e do subúrbio”, diz um deles, e talvez seja essa a imagem que vai ficar do sujeito enquanto se lembrarem dele. Talvez não seja muito tempo.

Para mim Updike não significava muita coisa. Não gostava dele como ficcionista, e não conheço sua poesia. Eu o considerava uma espécie de John Cheever com menos talento, um escritor um tanto limitado com suas historinhas sobre a classe média alta do nordeste dos Estados Unidos. No entanto, os obituários o colocam no nível de um Norman Mailer e de outro cujo nome agora me escapa. Talvez ele fosse realmente tudo isso, e talvez eu esteja errado. Não me importo. Curiosamente, não falam do resenhista, e essa era a única qualidade que eu admirava dele. Sempre achei suas resenhas brilhantes, e sempre achei que esse era o seu maior talento: escrever com graça e elegância sobre as obras dos outros — às vezes com mais graça que o autor original.

Me bati com o sujeito uma vez, em Veneza, coisa de 10 anos atrás. Para mim, na verdade, não interessa se ele era um escritor bom ou ruim, porque é a lembrança desse dia que vai ficar dele em mim. Já escrevi sobre isso neste blog, mas agora escrevo de novo, porque um escritor com tamanho reconhecimento público como John Updike merece um obituário à sua altura.

Eu tinha perdido o avião em Roma. Embarquei algumas horas depois, mas o pessoal que deveria me receber, obviamente, já tinha ido embora. E foi então que cometi a minha grande estupidez.

Ao sair do aeroporto, eu poderia ter olhado em duas direções. Se olhasse para a esquerda, veria atracadas ali perto as lanchas que me levariam diretamente à porta dos fundos do hotel em que eu ficaria. Mas não, olhei para a direita, e vi um ponto de táxi. Claro que não sei por que não me perguntei como um automóvel iria me levar até Veneza. E não aceito que me façam essa pergunta, porque ela me envergonha ainda mais.

Lá fomos nós. Entramos no táxi e depois de um longo caminho pelo que pareceram ser todos os grotões da Itália ele nos deixou em um ponto de vaporetto. Ainda tivemos que fazer uma baldeação em uma estação no Grande Canal, e outro vaporetto nos deixaria diante de um longo beco pelo qual se chegava ao Campo Santa Maria del Giglio, onde fica o hotel onde nos hospedaríamos.

Foi naquela baldeação. Eu estava em pé, carregando uma porção de malas. Aquele brejo infindável, um frio de cortar os ossos — era abril e Veneza é mais fria aí pelos fins de março, talvez por causa das águas —, e eu carregando uma porção de malas. Minhas mãos estavam vermelhas, porque elas nasceram para fazer carinhos e digitar em um teclado de computador ou de máquinas de escrever, no máximo para ser erguido, dedo médio em riste, em direção a alguém de quem eu não goste. Eu não sou do tipo que nasceu para carregar malas. Não é que tal empreitada esteja acima ou abaixo de mim; é que essas coisas simplesmente não deveriam fazer parte do meu mundo. Na verdade, não sou sequer do tipo que deva ser incomodado com o destino delas; malas, para mim, deveriam ser coisas autônomas que se encaminhariam diretamente ao seu destino, bem-adestradas como os yorkshires das madames de Copacabana.

Obviamente nada disso importava naquele momento. Minhas mãos doíam por causa das malas. Ao meu lado, minha então mulher, visivelmente grávida e cansada. Olhamos em volta para ver se havia um lugar em que ela pudesse se sentar enquanto o vaporetto não chegava. Os lugares estavam ocupados. E em um deles, sentado com aquele ar fleumático de quem está muito à vontade em seu lugar, estava o tal John Updike. À vontade como maganão de historinha de Joaquim Manuel de Macedo, alheio ao drama de dois pobres brasileiros e às mais básicas regras da etiqueta. Ao seu lado, também sentada, estava uma mulher. Ela também era feia. Não tão feia quanto ele, porque isso era uma tarefa difícil, mas ainda assim muito feia.

De qualquer forma, mesmo feios eles estavam sentados, enquanto eu em pé carregava uma porção de malas e ao meu lado estava uma mulher grávida.

Há um mínimo de regras de educação que as pessoas devem seguir em público, não importa que em casa arrotem e peidem e comam com as mãos. Uma delas diz respeito ao hábito saudável e gentil de ceder o seu lugar a uma mulher grávida. Porque isso é até mais que etiqueta, é um símbolo de respeito à vida e à preservação da espécie. John Updike não era um homem educado, no entanto. Continuou sentado, rindo com o bacurau ao seu lado.

E nessas horas você começa a nutrir e cultivar um sentimento pouco nobre de indignação e revolta, cuida dele com carinho e zelo como se cuida de um bebê. Mesmo que ele fosse o escritor que eu nunca achei que fosse, ainda assim teria a obrigação moral de ceder seu lugar a uma mulher grávida — e ela sentaria ali, bela ao lado da trupizomba de meia-idade que o acompanhava; e se ele fosse mesmo bom escritor poderia refletir sobre como são as coisas neste mundo: por exemplo, que ele estivera confortavelmente sentado até então, mas estivera sentado ao lado de uma espanta-mosquitos, enquanto o pobre paraíba aqui podia até estar com as mãos esfoladas pelas malas que carregava, mas naquela noite iria dormir ao lado de uma mulher bonita enquanto ele, com aquele jeito de quem estava tão mais à vontade do que eu, ciente de ocupar o seu lugar justo no mundo, teria que se contentar com aquela coisinha do Cão vadiar. Seria uma reflexão importante e luminosa sobre a natureza vã das coisas neste mundo. Mas como eu disse, Updike não era um escritor tão bom assim.

O vaporetto chegou e fomos embora — em pé, novamente; eu só sentaria no meu quarto de hotel. Mas aquele escritor mal-educado não saía de minha mente.

Mais tarde eu teria uma vingança solitária que é um retrato mais que acurado da pequenez de minh’alma, ao lembrar que ele tinha psoríase e eu não, e não importava o quão mais à vontade ele parecesse estar naquela estação do Grande Canal. Um pensamento mesquinho, eu sei bem, mas mesmo tantos anos depois — o tempo passou, Veneza passou, a mulher passou — ainda acho um pensamento menos mofino que a recusa do sujeito em ceder o seu lugar a uma mulher grávida.

Isso foi há mais de dez anos. Agora Updike está morto. Que descanse em paz. E escrevo isso com sinceridade e com profunda paz de espírito. Porque agora tenho mais um motivo para olhar de cima para ele e reconhecer que o destino me compensou aquela pequena provação — ele está morto e eu estou vivo, e não existe consolo melhor que esse neste mundo tão grande de meu Deus.