De vez em quando vejo “House”, seriado exibido pela Universal.
House, para quem não assiste à TV a cabo, é uma espécie de “ER” com um personagem central grosso e malvado. É um médico pretensamente genial, aparentemente capaz de diagnósticos brilhantes enquanto faz algo totalmente diverso da atividade médica, geralmente no final de cada episódio. Por exemplo, alguém fala sobre a barriga do Ronaldinho e ele descobre a cura para a Aids, coisas assim.
As pessoas assistem a House e se empolgam com os termos técnicos que ele usa. “Faça um HDGDSF agora!” “Faça uma rinostomia, uma histerectomia e uma tomografia!” — desculpe se os termos são confusos ou inexistentes: o que sei de medicina se resume às palavras “Novalgina” e, agora que tem genérico para tudo, “Dipirona”. Mas se não entendo nada de medicina, tenho certeza de que a maioria das pessoas que vêem aquele seriado também não entendem que diabo é aquilo. Elas assistem assim mesmo, como assistiam ao mais chato dos seriados, “ER”. Assim como eu, essas pessoas não sabem dizer o que há de verdade ali, não sabem quantas daquelas doenças com nomes esquisitos e sintomas idem são reais ou não. Nesse aspecto, os tantos fãs de House que existem por aí agem igualzinho aos seguidores de Jim Jones. Não importa o que o sujeito diz: é verdade, tem que ser verdade.
Talvez seja por isso que elas não conseguem perceber que House não é tudo isso que dizem dele.
Primeiro: House é um pé-frio. É provavelmente o maior pé-frio que eu já vi. É garantido. Você está com uma dor de cabeça, ou uma virose, ou uma indisposição qualquer — digamos que você está constipado — e tem a falta de sorte de cair nas suas mãos: é o seu fim, e eu choro por você e aviso à sua família para comprar o caixão e alugar um espaço na capela e contratar as carpideiras. Porque o seu destino é negro: em pouco tempo você vai desenvolver uma porção de sintomas que no mundo normal são incomuns e vai acabar com uma doença de nome impronunciável, algo como Síndrome de Hathaway-Nguyen-Hodges, ou Doença de Bangor-Sminörezk. Você vai começar a sangrar, ter convulsões, seu xixi vai ficar verde, você vai ficar com a cara da Linda Blair em “O Exorcista”. Como um Walt Disney da morbidez, ele poderia dizer ao olhar o cadáver mutilado e irreconhecível de um dos seus pacientes: “E tudo isso começou com uma simples dor de cabeça”.
Se House não é pé-frio, é o maior olho gordo que eu já vi. Pior que o sujeito que matou uma vaca do meu avô só de olhar para ela. O sujeito vai para as mãos de House e então começa a definhar, a definhar e quando vê já está na UTI.
Se algum dia eu ficar doente, por favor não me levem para House. Eu gosto da vida.
House é uma grande, uma enorme fraude. Sejamos francos: o que há de genial em fazer um bocado de exames computadorizados para descobrir o que o sujeito não tem? House corta um pedaço do cérebro de um sujeito e fica feliz: “Ele não tem o Mal de Robson-Clark!” Arranca dois terços do intestino de uma moça, e “Que bom, ela não tem a Doença de Lescaut-Donnerville!” A gente tem que admitir que mais cedo ou mais tarde House vai chegar a um resultado, provavelmente quando não restarem mais alternativas nem maneiras de tirar pedaços do corpo de alguém.
A única dúvida é saber se vai sobrar também algo do paciente.
Se alguém conseguir me explicar o que há de genial nisso, eu agradeço. Até porque duvido que House fosse capaz de descobrir que um sujeito tem esquistossomose apenas apalpando a sua barriga. Não gosto muito de médicos, acho uma classe canalha, mas vamos ser justos: os médicos aqui do Nordeste, acostumados a tratar gente que padece de uma fome atávica e secular, são muito melhores que o doutor capenga.
Aainda assim as pessoas assistem ao seriado, e compram seus DVDs nas Americanas, e não é só aqui. É triste que House faça mais sucesso que Francisco Cuoco em “Obrigado Doutor”, mas não estamos sozinhos: na França, House se tornou sinônimo de sedutor. Em Paris, um romance policial de Hugh Laurie, o ator que faz o papel do médico escroto, foi lançado com estardalhaço. As mulheres suspiram por ele.
No entanto suspiram à toa, porque House é gay.
House não gosta de mulheres, trata-as com arrogância, desprezo, até as raias do inconcebível. No mundo real House já teria levado tanto tapa que até hoje estaria procurando onde foi parar o seu nariz.
Tem uma mulher lá, uma doutora que parece ser a chefe de House no hospital e que segundo ele tem uma bunda de respeito. A mulher é louca para dar para o sujeito — mas ele não come. Incapaz de dar amor, ou coisa mais básica, ele dá apenas o seu sarcasmo. Cada um dá o que tem. Uma das doutorazinhas quis dar para ele — mas ele não comeu. É um padrão que se repete em excesso.
É uma coisa lógica: se House é assim genial, se todo mundo acha ele brilhante, em um hospital cheio de médicas gostosinhas e enfermeiras bonitinhas, se fosse homem macho do sexo masculino já tinha passado o rodo. “Vamos discutir o linfoma de Kotler lá em casa”, e as moças o seguiriam com um sorriso beatífico. Mas ele prefere soltar piadas agressivas, humilhar as moças sem razão. Tem uma doutora lá com cara de russa que é linda e promíscua — mas, imagine, ele não come. Ah, por favor.
A homossexualidade de House é tão evidente. Olha o caso daquela doutora, a sua chefe. O sujeito vive fazendo alusões à sua bunda. Mas não são um elogio, não são um galanteio, não são sequer a frustração de um desejo. São apenas agressão, são sem sentido, não têm aquela coisa verdadeira e sentida de peão de obra que olha uma moça feia e sem graça — mas com os atributos mínimos toleráveis, dois peitos e uma bunda — e diz com olhos apertados “Você é a nora que mamãe pediu a Deus”. Não. House diria que ela é burra — e isso é triste, porque qualquer homem neste mundo sabe que não existe mulher burra, pelo menos não enquanto ele ainda não comeu.
Misoginia tem limites, mas a de House é tão grande que deveria soar o sinal de alarme em qualquer mulher com o mínimo de senso. Isso não acontece, entretanto. Cheguei à conclusão de que o seriado trabalha com um sentimento que as mulheres não admitem em público porque têm vergonha e que Nelson Rodrigues, em uma das frases mais profundas e mais mal interpretadas da história da literatura brasileira, resumiu ao dizer que “toda mulher gosta de apanhar, só as neuróticas reagem”. É por isso que elas não percebem o que é óbvio, gritantemente óbvio: House é apaixonado por Wilson, o oncologista bonzinho e recalcado que o trata com excessiva condescendência e delicadeza (o que mostra, desde logo, quem é que tem ascendência na relação) e que é interpretado por aquele moço que fez o rapaz sensível em “Sociedade dos Poetas Mortos”.
Wilson é tão obviamente gay que é impressionante que as pessoas não comentem isso. É também é o grande amor da vida de House. E retribui esse amor em igual medida. Mas talvez para evitar que as milhares de mulheres que suspiram pelo sujeito (e erroneamente o chamam de cafajeste, quando ele é um homem que apenas reprime os seus desejos e transforma essa repressão em agressividade) desistam do seriado, tentam passar a imagem de um médico heterossexual que no entanto se recusa a comer alguém. House prefere passar seu tempo livre assistindo a shows de destruição de caminhões, o que, definitivamente, é coisa de quem quer afetar uma masculinidade inexistente. Em um episódio Wilson não quis assistir o tal show com ele — e então House se transformou em uma bicha vingativa e maldosa, e perseguiu os outros amigos de Wilson. O moço é possessivo.
Eu tenho uma sugestão para o seriado. Deveriam fazer House assumir sua paixão por Wilson. Ele se tornaria uma pessoa melhor. Trataria as pessoas com mais civilidade, porque falta de sexo deixa as pessoas nervosas e irritadas. Se isso acontecesse, House deixaria de ser um apenas médico com algum acordo com os donos do hospital onde trabalha e que rouba o Estado pedindo exames e mais exames; e o mundo seria mais feliz.
“Presságio” é um dos piores filmes feitos por Hollywood nos últimos tempos.
Finalmente ele descobre que a última profecia se refere ao fim do mundo: uma explosão solar vai destruir o planeta e não há nada que se possa fazer para evitar isso. Então o mistério dos sujeitos com caras de fantasmas é revelado: eles são ETs que acompanham os escolhidos para serem salvos do fim do mundo. O filho de Cage e a filha da maluca são levados em uma nave espacial com seres de luz que parecem anjos para outro planeta, onde poderão recomeçar a humanidade. Levam consigo dois coelhinhos, símbolos pascais de fertilidade e indicativos do que aqueles dois meninos farão a partir dali. (Só por isso os autores do filme deveriam ser processados por pornografia infantil.)
“
“O Leitor” é, antes de tudo, um romance de formação em tempos difíceis, uma espécie de Billy Bathgate sem o lirismo idílico de “Houve Uma Vez Um Verão”. Mas é também, e principalmente — e é isso que lhe confere grandeza –, um filme sobre o desconforto alemão em lidar com o próprio passado nazista.
Como a ficcional Hannah Schmitz, milhares de alemães colaboraram em atrocidades de guerra sem muitos questionamentos morais. Em certa medida, isso é parte do próprio caráter germânico; em outra, maior e mais importante, é representativa do anti-semitismo generalizado na sociedade alemã. Eu e milhares de outras pessoas conseguimos compreender isso. Rosembaum não consegue porque sua agenda limita sua capacidade de ver a realidade.
Na minha época Khomeini estava nos jornais praticamente todos os dias. Era o equivalente ao Osama bin Laden de hoje. Foi o sujeito que derrubou Reza Pahlevi, que humilhou os Estados Unidos na crise diplomática com os reféns na embaixada americana em Teerã (e indiretamente ajudou a eleger Ronald Reagan presidente). Khomeini era o cão chupando manga. Sua imagem era a de um contraponto sombrio e quase diabólico a outro velho: de um lado, o simpático vovô atleta João Paulo II, trazendo um sopro de renovação à imagem da Igreja Católica; do outro, o Khomeini malvado de turbante, pregando a revolução islâmica e levando o Irã, antes tão ocidentalizado, a uma nova era de trevas. Pelo menos era essa a imagem que tínhamos dele.
O livro era ruim.
A lista de 10 melhores filmes de Moniz Vianna publicada pelo
No início do século, quando o cinema iraniano entrou na moda, eu ficava impressionado como as pessoas tomavam o “choque” causado pelo contato com uma cultura diferente por sinônimo de qualidade cinematográfica. O cinema iraniano então adquiriu um status maior que o merecido. Não que fosse ruim; mas os critérios que baseavam esse entusiasmo eram basicamente sociológicos, não cinematográficos.
Sob esse aspecto, a ideologia cinemanovista de “uma idéia na cabeça e uma câmera na mão” — que não define o Cinema Novo, claro, mas que acabou se tornando a égide sob a qual o movimento se desenvolveu — foi uma das coisas mais deletérias que poderiam ter acontecido ao cinema brasileiro. A idéia de que cinema tecnicamente bem feito era uma coisa burguesa e dispensável era, desde o início, perniciosa. “Terra em Transe” é o melhor filme brasileiro, como acham alguns? Pode até ser. Mas que ninguém venha me dizer que o filme não se beneficiaria de uma produção mais esmerada. Locações. Cenários. Figurinos. Sonoplastia. Nada disso é supérfluo. Uma coisa é fazer Dogville em um cenário inexistente para defender um conceito; outra é enfiar um país inteiro, ainda que metaforicamente, em uma casa porque não se tem dinheiro para recriá-lo.
Muita gente lembrou de bons filmes que não entraram na lista, por uma ou outra razão. “Eles Não Usam Black-Tie”, “O Homem da Capa Preta”, os filmes do Person, etc. Tem o Andrea Tonacci de quem tanta gente lembra e sobre quem confesso a minha total ignorância. Uma lista não pode contemplar todos os filmes, claro, e tenta buscar uma média aceitável. Elas são feitas para isso mesmo, para excluir.
E tem também o pessoal que sentiu falta da pornochanchada.
“O Estranho Caso de Benjamin Button” é um filme medíocre e sem imaginação. É “Grandes Esperanças” estrelada por Forrest Gump. Não Tom Hanks; Forrest Gump, mesmo, o personagem idiota.
Do outro lado, há “O Corajoso Ratinho Despereaux”, desenho animado da Universal que está sendo exibido sob uma acolhida morna da crítica. Morna porque ela está mais preocupada em louvar as qualidades de outros dois desenhos deste último ano: “
Já “Bolt” só pode ser elogiado a partir da admissão de que a máquina de publicidade da Disney ainda funciona. Não é tão ruim quanto um “Bee Movie” ou um “Encantada”, mas está longe de ser realmente brilhante. É apenas mais um desenho animado que absorve alguns dos novos clichês do gênero — e aí, sim, pode-se dar à Pixar o seu merecido crédito por definir o novo padrão: “Bolt” deve muito a “Os Incríveis”. No entanto a crítica já viu nele o “renascimento da Disney”. Viu demais. Bolt se enquadra na mesma categoria de “Irmão Urso” ou “Nem que a Vaca Tussa”: filmes com um bom padrão de qualidade mas que acrescentam pouco ou nada.
Walt Disney, o homem que criou todo um gênero — o longa metragem infantil de animação –, teria orgulho de um filme como “Despereaux”.
A minha primeira bíblia sobre os Beatles foi a revista Beatles Documento (ou Documento Beatles), uma edição especial da revista Somtrês escrita pelo Marco Antonio Mallagoli, do fã clube Revolution. Era 1985, uma época em que informação era difícil de achar. Minha primeira cópia se desfez de tanto uso, e comprei outra. Depois eu veria que tem muita informação errada ali. Muita, mesmo, além de opiniões bastante descartáveis. Mas independente disso, foi a revista responsável por eu querer entender um pouco mais sobre a banda. A Beatles Documento foi inestimável.
Pirataria dos Beatles é coisa de fã, mesmo. A maior parte é simplesmente ruim. Não é algo que interesse realmente a ninguém, porque são geralmente canções descartadas ou incompletas. Mas mesmo levando isso em consideração, pirataria já foi mais interessante. Até há 15 anos, uma boa porção de material inédito bastante interessante era encontrado apenas em discos piratas. A Apple contornou esse problema lançando o Live at the BBC em 1994, e nos anos seguintes a série Anthology, com um montão de sobras de estúdio e algumas gravações ao vivo. Com isso, eliminaram boa parte dos atrativos desses discos. Pirataria é para completistas que se dão ao trabalho de tentar escutar tudo que a banda fez. Ou seja: para bobos.
Durante muito tempo, esses discos foram lançados por “selos” tão verdadeiros quanto uma nota de 3 reais. Alguns, como a Yellow Dog, Audifön, Vigotone e Great Dane se notabilizaram pela alta qualidade dos seus lançamentos. Mas até há alguns anos era extremamente difícil achar discos piratas — e quando se achava, eles eram caríssimos. A coisa melhorou muito com o surgimento do CD. Mas a grande virada, mesmo, foi a consolidação da internet como canal de distribuição. Foi quando surgiu a Purple Chick.
Demos é como são chamadas as gravações caseiras feitas para não esquecer uma música que acabaram de compor ou para mostrar aos outros membros da banda. Antigamente elas estavam espalhadas por vários discos diferentes, em coletâneas como a série Artifacts, mas hoje há uma série chamada The Complete Home Recordings, que abrange desde as primeiras gravações, ainda com Stuart Sutcliffe, até o final. A maior parte é chata de doer, mas aqui e ali uma ou outra canção se sobressai. Serve também para entender que, na época do “Álbum Branco”, as canções já eram apresentadas ao resto da banda praticamente em sua forma final.
Os dois únicos discos ao vivo oficiais dos Beatles foram lançados 7 anos depois do fim da banda. O Live at Hollywood Bowl, uma mixagem de pedaços dos shows de 1964 e 1965, ainda não foi lançado em CD, e o The Beatles Live! At Star Club, Hamburg 1962 sempre enfrentou problemas legais, já que nunca foi autorizado pela banda. (Em 1998 eles finalmente venceram um processo judicial para tirá-lo de catálogo, e hoje é um disco pirata. Mas é brilhante. Serve, quando menos, para mostrar que os Beatles eram uma grande banda de rock and roll e que eram extremamente empolgantes ao vivo, antes da rotina dos shows da beatlemania.) A maioria dos discos de shows têm qualidade de som muito ruim, servindo principalmente como registro histórico. Mas há exceções. O Shea Stadium é o maior show da história dos Beatles (embora tenha sido “aperfeiçoado” em estúdio algumas semanas depois), e o primeiro mega-show da história. No Live in Atlanta, 1965, você pode ouvir Lennon esnobando a sua audiência, que obviamente não podia ouvir nada por causa dos seus próprios gritos. O Five Nights at a Judo Arena, dos shows japoneses da última turnê dos Beatles, tem som excelente mas mostra uma banda que já não faz o mínimo esforço em tocar sequer afinada. E finalmente há o Candlestick Park, o último show ao vivo dos Beatles, em São Francisco (e melhor que os outros shows dessa turnê).
Essa é a outra grande fonte da pirataria. Afinal, foram mais de 90 horas de gravações. Há coisas inacreditáveis ali. Acho que chegam a centenas de canções diferentes. A série Thirty Days é clássica, e foi durante muito tempo a mais completa. Mas recentemente a Purple Chick lançou a série A-B Road, baseada nas fitas do filme — um “álbum” para para cada dia, com mais de 90 faixas em cada. Nos dois casos, a verdade é que qualquer ouvinte ficaria perdido entre tantas gravações dispensáveis, redundantes ou ruins. Diálogos, afinação, falsos começos, gravações sem absolutamente nenhum interesse — é uma infinidade de bobagens que não interessa a ninguém, além de colecionadores hardcore. É por isso que eu recomendaria os 3 discos de The River Rhine Tapes. Uma excelente seleção do que saiu de melhor daquelas sessões — John cantando Get Back, Maxwell’s Silver Hammer, Something e I’ve Got a Feeling, por exemplo, as melhores versões de Two of Us, e muito mais — com qualidade de som muito boa. É definitivamente melhor que o Anthology III.